Brasil e México têm picos de mortes por COVID-19 enquanto a pandemia assola a América Latina

Por Tomas Castanheira
18 Dezembro 2020

Os dois maiores países da América Latina, Brasil e México, reportaram um crescimento acelerado de contaminações e mortes pela COVID-19 ao longo do último mês. Eles estão se aproximando de superar os terríveis picos registrados antes neste ano.

O Brasil atingiu ontem o sinistro marco de 7 milhões de casos de COVID-19, reportando 68.437 novos casos – o segundo maior número num único dia desde que a pandemia atingiu o país em março. Foram também notificadas 968 mortes, o maior registro desde meados de setembro. O total de mortes no Brasil já é de 183.822, somente menor do que o dos Estados Unidos.

Trabalhadores em frigorífico da JBS no Rio Grande do Sul. (Crédito: MPT)

Apesar disso, os números reportados pelo Brasil na quarta-feira foram substancialmente menores do que a realidade. O estado de São Paulo, que segue reportando os maiores números absolutos de casos e mortes, não divulgou dados ontem, alegando uma falha no sistema. No dia anterior, havia reportado 4.412 contaminações e 232 mortes.

O México ultrapassou 115 mil mortes pela COVID-19 na terça-feira, ao reportar 801 novas vítimas. O país é o quarto no ranking mundial de mortes pelo coronavírus. Com um índice baixíssimo de testagens, quase 30 vezes menor do que o dos Estados Unidos, a média de contaminações mais do que dobrou em menos de um mês. Em 20 de novembro, eram, em média, 3.958 casos diários e hoje, 10.564, de acordo com o Worldometer.

Por toda a região latino-americana, o vírus continua a se espalhar de forma selvagem. Em junho, a OMS havia declarado a América Latina como epicentro global da pandemia de COVID-19. Desde então, seus países vivem uma onda de devastação praticamente contínua.

A situação na Colômbia é representativa. Cerca de 170 pessoas estão morrendo todos os dias pela COVID-19 no país. Essa média segue praticamente igual há três meses, após um pico de cerca de 300 mortes diárias em agosto. Com o número de contaminações nesta semana voltando a ultrapassar as 10.000 por dia, a Colômbia soma mais de 1,4 milhões de casos e 39.356 mortos pelo coronavírus.

Cerca de 170 pessoas também morrem diariamente na Argentina, que já superou os 1,5 milhões de casos e 40.000 mortes. Um recente crescimento no número de casos na capital, Buenos Aires, considerada o epicentro da pandemia no país, acende o alerta para uma nova escalada neste país sul-americano.

Em uma série de países latino-americanos, os sistemas de saúde estão à beira do colapso. O Brasil, que até a última semana tinha 31 mil pacientes de COVID-19 internados, já está chegando à lotação máxima de hospitais em várias capitais.

Com uma fila de mais de 600 pacientes de COVID-19 aguardando por um leito, os profissionais de saúde do Rio de Janeiro estão sendo obrigados a escolher aqueles que terão uma chance de sobreviver, ou serão deixados para morrer sem tratamento.

No domingo, a Folha de São Paulo publicou uma matéria reportando a rotina dos médicos que fazem esse trabalho no Centro de Regulação Leitos do Rio de Janeiro. Uma das médicas contou à Folha: “Não é tão angustiante como estar na ponta, claro, mas a gente sai mentalmente e emocionalmente muito destruído. Ontem abriu [a solicitação de internação de] uma senhora que tinha perdido ontem um filho para a Covid e sido internada”.

A situação é igualmente crítica no México. Com mais de 8 mil pacientes internados, o país atingiu o recorde de hospitalizações por COVID-19, segundo o Instituto Mexicano do Seguro Social (IMSS). O diretor do IMSS, Victor Borja, alertou esta semana que 95% dos leitos estão ocupados no estado do México. Borja afirmou que 700 pacientes de COVID-19 na região aguardam por tratamento, em muitos casos, por um leito ser liberado.

No Panamá, o país mais atingido da América Central e em meio a um vertiginoso ascenso de contaminações, os hospitais entraram em estado de colapso. Com cerca de 4,3 milhões de habitantes, o Panamá tem quase 1.500 pacientes de COVID-19 internados. Os profissionais de saúde estão realizando jornadas duplas de 16 horas para conseguir atender os doentes.

Um novo crescimento de contaminações no Peru, que possui uma das maiores taxas de mortes de COVID-19 por habitante no mundo, está provocando uma superlotação dos hospitais no norte do país. Na região de Piura, 95% dos leitos de UTI já se encontram ocupados.

A situação catastrófica na América Latina é o produto das políticas absolutamente criminosas de seus governos capitalistas diante da pandemia. Há meses, eles levantaram qualquer restrição à circulação do vírus, promovendo mentiras sobre um suposto estado de controle da pandemia.

O maior representante da política adotada universalmente pelas classes dominates latino-americanas é, não por acaso, o presidente fascista do Brasil, Jair Bolsonaro.

Desde a chegada da pandemia ao seu país em março, Bolsonaro defendeu aberta e continuamente a contaminação de toda a população. Em julho, quando o Brasil chegou a 2 milhões de casos da doença, Bolsonaro declarou uma “guerra aos lockdowns” em nome da classe capitalista, afirmando: “não podemos continuar sufocando a economia”.

Notavelmente, apesar de ocuparem campos políticos declaradamente antagônicos, há grandes semelhanças entre a atitude assassina de Bolsonaro e aquela adotada pelo presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, do Movimiento Regeneración Nacional (MORENA).

López Obrador, assim como Bolsonaro, defendeu curas charlatanescas contra o vírus mortal, desprezou o uso de máscaras e incitou a população a rejeitar o isolamento social. AMLO, como o presidente mexicano também é conhecido, forçou prematuramente a reabertura dos locais de trabalho, particularmente das fábricas de autopeças, essenciais para reativar a cadeia produtiva conectada aos EUA.

Com o México atingindo o pior estado da pandemia, López Obrador, pela primeira vez segundo El Universal, fez um chamado à população para que fique em casa durante o período de festas. “São só esses 10 dias. Ajudem todos, vamos nos cuidar, porque assim evitamos que ocorram mais contágios, [assim como] a saturação dos hospitais. De qualquer forma, estamos ampliando a capacidade hospitalar”.

Isso é pura hipocrisia. Enquanto joga a responsabilidade nas costas dos trabalhadores, o governo de AMLO não está tomando nenhuma medida real para impedir que a doença continue a se espalhar e matar centenas todos os dias. A prioridade desse impostor burguês, que representa os partidos latino-americanos falsamente identificados como de “esquerda”, é preservar os fluxos de lucro da elite capitalista.

Os trabalhadores da América Latina devem ter consciência de que a situação da pandemia é crítica. Apesar dos governos da região estarem anunciando planos de vacinação, que podem começar ainda este mês em países como o México, especialistas afirmam que o processo de vacinação pode atravessar 2022. Enquanto isso, o número de mortos se amplia cada dia mais rápido.

É preciso tomar ação imediata. O isolamento social é a medida necessária, segundo a ciência, para interromper a circulação do vírus pela sociedade. A ampla circulação de pessoas e encontros familiares, que costumam ser parte das festas de final de ano, representam uma grave ameaça. Os efeitos do recente feriado de Ação de Graças sobre o aumento das mortes por COVID-19 nos EUA devem servir como uma trágica lição à classe trabalhadora internacional.

Mas, é impossível efetivar o distanciamento social e acabar com a onda de mortes sem confrontar diretamente os interesses da classe capitalista. É fundamental parar fábricas, comércios, transportes e todas as atividades econômicas não-essenciais. A produção essencial deve ser definida pela própria classe trabalhadora de acordo com seus interesses sociais, e deverá ser realizada sob normas de segurança formuladas e supervisionadas em parceria com cientistas e profissionais de saúde.

Durante o tempo que for necessário, os trabalhadores afastados devem ter garantido o pagamento integral de seus salários. Os recursos para a implementação desse programa existem na sociedade, a questão central é qual classe os controla. Essa verdade é especialmente marcante na América Latina, a região mais desigual do planeta.

Para lutar por essas medidas, os trabalhadores não podem contar com os sindicatos, que alegam representá-los oficialmente. Essas organizações são, na realidade, radicalmente contrárias a esse programa.

Os sindicatos – desde aqueles vinculados a López Obrador no México, até os controlados por seus aliados do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil – estão colaborando ativamente com a implementação dos ataques corporativos à classe trabalhadora e a encobrir casos e mortes de COVID-19 nas empresas para garantir a continuidade da produção.

Da mesma forma, é impossível encontrar qualquer palavra em defesa dessas medidas nas publicações da pseudoesquerda latino-americana e mundial. Para essas organizações, que representam os interesses de camadas da alta classe média cada vez mais incorporadas ao Estado burguês, qualquer interferência no processo de acumulação capitalista está descartada. Elas estão efetivamente dando cobertura ao assassinato social promovido pela classe dominante.

A defesa da vida das amplas camadas da população mundial é uma questão da luta de classes. As greves e protestos de massas que se espalharam pela América Latina no último período sinalizam o amadurecimento da consciência de trabalhadores e jovens em direção às tarefas revolucionárias que têm diante de si.

A mais fundamental dessas tarefas é a construção de uma direção política internacionalista e socialista na classe trabalhadora; isto é, construir os Partidos Socialistas pela Igualdade por toda a América Latina e ao redor do mundo.

 

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