Campanha anti-China lança dúvidas sobre vacinação enquanto segunda onda de COVID-19 atinge o Brasil

Por Miguel Andrade
18 Dezembro 2020

Publicado originalmente em 9 de dezembro de 2020

O Brasil está assistindo a um rápido aumento de infecções e mortes por COVID-19 após o abandono total pelos governos federal e locais de qualquer restrição à atividade econômica. Mesmo com a aproximação do verão, a volta ao trabalho elevou a média diária de mortes para 600, um recorde de dois meses. Novas infecções diárias estão no patamar de 40.000, e seis estados brasileiros estão próximos do colapso do sistema de saúde, com mais de 80 por cento das UTIs dedicadas à COVID-19 ocupadas, e leitos hospitalares repletos de pacientes sendo tratados para doenças que haviam sido negligenciadas e agravadas durante oito meses de pandemia.

Bolsonaro em entrevista coletiva com ministros em 18 de março (crédito: Planalto)

Ao mesmo tempo, os planos de vacinações em massa para o próximo ano estão sendo sistematicamente minados pelo conflito que está dominando a classe dominante brasileira e causando a divisão entre o governo do presidente fascistóide Jair Bolsonaro e a oposição no Congresso, liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT): a atitude do Brasil em relação à ofensiva imperialista liderada pelos EUA contra a China.

Desde sua campanha presidencial em 2018, Bolsonaro tem procurado explorar o impacto das importações industriais e dos investimentos chineses no Brasil para fazer um apelo nacionalista, sintetizado pela acusação de que “a China não está comprando do Brasil, está comprando o Brasil". Esta campanha chauvinista tem servido como uma cobertura para seus planos de girar a política externa brasileira para um alinhamento total com Washington.

No início de 2020, com apenas um ano de mandato, Bolsonaro solidarizou-se com a campanha reacionária anti-chinesa do presidente americano Donald Trump, que culpou o governo chinês pela pandemia e promoveu alegações fraudulentas originadas em círculos de extrema direita de que a pandemia era parte de um plano chinês deliberado para minar os EUA.

Bolsonaro está agora trabalhando para impedir o uso, pelas autoridades federais e locais, da vacina CoronaVac desenvolvida pela China, que acaba de terminar a terceira fase dos testes clínicos realizados no Brasil por uma das principais instituições de pesquisa de vacinas do país, o Instituto Butantan, com sede em São Paulo. O Instituto Butantan faz parte da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e é um dos dois principais centros de doenças infecciosas do país, juntamente com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição federal sediada no Rio de Janeiro. O instituto produz 75% das vacinas utilizadas pelo Ministério da Saúde em campanhas anuais de vacinação.

Quando o Brasil surgiu como um epicentro da pandemia mundial COVID-19, o Butantan fez uma parceria com a empresa de biotecnologia Sinovac Life Science, sediada em Pequim, para realizar testes clínicos no Brasil e garantir os direitos e uma capacidade inicial para produzir 100 milhões de doses da vacina CoronaVac por ano.

Os ensaios da fase dois da vacina no Brasil produziram resultados promissores, com 97% dos participantes desenvolvendo anticorpos. O uso emergencial da vacina para trabalhadores da área de saúde e de outros setores essenciais já está sendo realizado na China, com centenas de milhares de vacinados. Chile, Turquia e Indonésia também estão realizando testes da vacina.

A vacina CoronaVac também já se provou segura, embora esses resultados não sejam surpreendentes, dada a abordagem tradicional adotada pela Sinovac. A CoronaVac utiliza uma forma fisicamente degradada - ou "inativada" - do vírus SARS-CoV-2, a mesma abordagem utilizada mundialmente para as vacinas contra a gripe e, de modo mais notável, para a vacina Salk para a poliomielite.

Esta abordagem contrasta com as recentes vacinas de RNA mensageiro desenvolvidas pela Moderna e pela Pfizer, e também é geralmente menos eficaz, exigindo uma cobertura mais ampla da população para garantir uma interrupção na propagação do vírus. As vacinas típicas contra a gripe que usam a mesma técnica são normalmente cerca de 60% eficazes. Ao mesmo tempo, porém, este tipo de vacina tem a vantagem de exigir apenas refrigeração normal, ao contrário do caro ultra-resfriamento exigido pelas novas vacinas de RNA mensageiro.

A CoronaVac, no entanto, foi vilipendiada por Bolsonaro, somente por causa de sua origem chinesa, com o presidente questionando a integridade de toda a comunidade científica na China, bem como daqueles envolvidos nos ensaios brasileiros.

Em 21 de outubro, depois que seu ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, disse aos 27 governadores brasileiros que o ministério prepararia o Sistema Único de Saúde para usar a CoronaVac, Bolsonaro disse à imprensa que "Não compraremos a vacina da China". A seu modo tipicamente estúpido, ele afirmou: “não acredito que vacina chinesa transmita segurança pela sua origem.” Ele acrescentou que "da China, lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido lá". No mesmo dia, ele escreveu no Facebook em letras maiúsculas que o povo brasileiro “não será cobaia de ninguém", e que a falta de "comprovação científica" seria um obstáculo para investir na vacina.

As reservas sobre "comprovação científica" são ridículas vindas de Bolsonaro, que defendeu todo tipo de falsa cura para a pandemia da COVID-19 lançada pelas forças mais retrógradas - a mais proeminente delas sendo a hidroxicloroquina - enquanto negava a necessidade de medidas básicas de prevenção como o uso de máscaras e de distanciamento social. A postura em relação à CoronaVac também contrasta com o financiamento federal para a vacina que está sendo desenvolvida pela gigante farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca junto com cientistas da Universidade de Oxford, que foi testada no Brasil e deve ser produzida pela Fiocruz do Rio de Janeiro a uma taxa de 160 milhões de doses por ano, inicialmente.

Dados clínicos completos sobre a vacina da AstraZeneca foram publicados ontem mesmo na respeitada revista médica Lancet. É a primeira vez que qualquer uma das autoridades e empresas responsáveis pelo desenvolvimento das vacinas mais avançadas internacionalmente - incluindo Pfizer, Moderna, Sinovac e o Instituto Gamaleya na Rússia, que produz a Sputnik V - o faz. O projeto da AstraZeneca tem sido questionado, no entanto, devido a aparentes erros nos ensaios, os mais significativos deles sendo a obtenção de maior eficácia com uma dose menor e a falta de pacientes idosos em seus testes.

Em meio a sua campanha anti-chinesa, Bolsonaro reagiu com alegria em 10 de novembro quando foi divulgada a morte de um dos participantes dos ensaios do CoronaVac, quatro dias antes, o que levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, a ordenar uma interrupção imediata nos ensaios do Butantan.

Foi imediatamente revelado que a morte havia sido um suicídio. O Instituto Butantan foi a público alegando que tinha informado a Anvisa quatro dias antes que a morte não tinha relação com a vacina. Respondendo com uma alegação de que havia tido problemas com seus computadores e não tinha visto o relatório do Butantan, a Anvisa permitiu que os ensaios fossem retomados. Embora a verdadeira razão para a Anvisa interromper os testes ainda não esteja clara, e sua explicação ainda seja vista com ceticismo no Brasil, ela deu a Bolsonaro outra oportunidade de se opor à "vacina chinesa" e ir às redes sociais para declarar, sem qualquer fundamentação: "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o [governador de São Paulo] Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha.”

Esta declaração, e a iniciativa sem explicação da Anvisa de interromper os testes, levantaram suspeitas de que Bolsonaro irá interferir na avaliação da CoronaVac pela agência. Na segunda-feira, o governador de São Paulo, João Doria, anunciou que sua administração pretende iniciar a vacinação com a CoronaVac em 25 de janeiro com os profissionais de saúde, os idosos e a população indígena - que juntos somam 9 milhões dos 44 milhões de habitantes do estado.

Na terça-feira, o Ministro da Saúde anunciou em uma reunião convocada às pressas com os governadores de todo o Brasil que o governo compraria vacinas da Pfizer e já havia garantido 300 milhões de doses de várias origens para 2021, sem apresentar nenhum calendário coerente de vacinação.

Uma campanha de vacinação organizada em nível estadual é inédita no Brasil, e muitos governadores aliados de Bolsonaro deixaram a reunião acusando Doria, um antigo aliado político fundamental de Bolsonaro e agora seu rival político nacional, de oportunismo por tentar contornar o Ministério da Saúde e negociar com governadores e até prefeitos a o uso da CoronaVac. Flávio Dino, governador do estado do Maranhão pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), já solicitou ao Supremo Tribunal Federal que permita a importação de vacinas sem a aprovação da Anvisa, com base na legislação emergencial aprovada pelo Congresso em março, permitindo o uso emergencial no Brasil de medicamentos aprovados por qualquer um dos homólogos da Anvisa na China, na União Européia, no Japão ou nos Estados Unidos.

Longe de resolver a crise, se bem sucedida, a petição de Dino irá apenas agravar a busca desesperada por uma vacina no Brasil, com os governadores já alertando para o potencial caótico de uma campanha de vacinação organizada pelos estados de provocar uma corrida para estados onde as vacinas estão sendo aplicadas.

Os especialistas em saúde também estão alertando que o país não está preparado para vacinar toda a população no próximo ano devido à falta de equipamentos de proteção para os 110.000 trabalhadores que trabalham nos 38.000 postos de vacinação do Sistema Único de Saúde, e até mesmo de seringas, sem falar nos os ultra-resfriadores, além da potencial escassez adicional causada pelas vacinações maciças no próximo ano.