Podemos nega perigo crescente de golpe militar fascista na Espanha

Por Alejandro López e Alex Lantier
12 Dezembro 2020

Publicado originalmente em 4 de dezembro de 2020

Em meio à crise política explosiva na Espanha causada pela revelação da existência de apelos generalizados a um golpe de Estado fascista entre o corpo de oficiais espanhol,o líder do Podemos e vice-primeiro ministro, Pablo Iglesias, finalmente quebrou seu silêncio na quinta-feira sobre o assunto – mas apenas para insistir que as tramas fascistas de golpe não representam nenhuma ameaça.

Essa é uma tentativa politicamente criminosa do Podemos de tranquilizar os trabalhadores e jovens diante do perigo crescente do fascismo. No dia anterior, a Infolibre havia divulgado conversas de WhatsApp de um grupo de dezenas de altos oficiais aposentados da força aérea que proclamavam sua lealdade ao ditador fascista espanhol Francisco Franco, denunciavam a esquerda, gabavam-se de laços estreitos com o Estado-maior e convocavam um massacre do povo espanhol. O major-general aposentado Francisco Beca apelou repetidamente para o assassinato em massa para "extirpar o câncer", escrevendo: "Acho que o que me falta é atirar em 26 milhões de pessoas!!!!!!!!".

Na noite anterior à intervenção de Iglesias, o tenente-coronel aposentado José Ignacio Domínguez, ex-participante do grupo de conversa, foi ao programa de rádio Hora 25. Ele advertiu, "houve e existe um movimento por um pronunciamiento", ou seja, uma tentativa de mudar a política para a direita, ameaçando um golpe. Falando dos participantes do grupo de conversa, Domínguez acrescentou: "Eles não são monarquistas ou constitucionalistas, eles são franquistas e defendem a ditadura. Não estou falando apenas daquelas do passado, mas também do futuro. Eles aspiram a uma ditadura".

Na quinta-feira de manhã, porém, Iglesias deu uma entrevista em horário nobre na televisão estatal TVE1 para insistir descaradamente que nada de importante havia sido revelado. Ele disse: "O que esses senhores dizem, na idade deles e já aposentados, em uma conversa após umas doses de bebida a mais, não representa nenhuma ameaça".

Líder do Podemos Pablo Iglesias (Wikimedia Commons)

Iglesias tentou assegurar ao público que as mensagens de WhatsApp "não são representativas de nossas forças armadas". Isso fora contradito na noite anterior pelo tenente-coronel Domínguez, que relatou que o fascismo está vivo e com boa saúde no exército espanhol: "O regime de Franco continua a ter uma grande presença no exército, e Franco continua a ser uma figura respeitada".

No entanto, Iglesias insistiu que as ameaças dos oficiais no grupo WhatsApp não têm nenhuma implicação prática: "Se eles tivessem feito isso enquanto estavam em serviço ativo, obviamente, teria tido consequências disciplinares, mas lá eles não o teriam feito".

Iglesias alegou que isso se devia ao fato de que lhes faltava "a coragem" para agitar um golpe quando estavam em serviço ativo. Para apoiar esse argumento grotesco, Iglesias citou a autoridade de outro importante membro da Podemos, o general aposentado da Força Aérea e chefe do Estado-maior de Defesa, Julio Rodríguez. Iglesias afirmou que Rodríguez tinha lhe dito que "alguns dos que agora dizem atrocidades, quando estavam no exército, sugavam qualquer um para continuar a subir [de patente]".

O argumento de Iglesias trivializando o apoio fascista no exército é repleto de contradições. Se esses oficiais há muito apoiam um golpe fascista, mas não tiveram "coragem" para isso, e em vez disso passam seu tempo "sugando" o Estado-maior, isso só levanta a questão: por que esses oficiais agora acreditam que conclamar um golpe fascista é uma boa maneira de "sugar" o Estado-maior e a classe dominante?

A realidade é que forças poderosas na política burguesa espanhola estão divulgando e legitimando apelos ao rei para apoiar um golpe. E, enquanto Iglesias e o Podemos mantinham um silêncio confuso após as revelações da Infolibre, o partido fascista Vox defendia abertamente no Congresso as conversas obscenas e fascistoides dos oficiais no WhatsApp. Saudando os oficiais que apelavam para o assassinato em massa de 26 milhões de espanhóis, dizendo que lutavam pela "unidade da Espanha", a deputada do Vox, Macarena Olona, declarou: "É claro que eles são dos nossos".

Beca foi o principal signatário de um grupo de 39 oficiais aposentados da força aérea que escreveram ao rei espanhol Felipe VI para denunciar o governo eleito do Partido Socialista (PSOE)-Podemos. Isso veio depois de outra carta semelhante de 73 oficiais superiores aposentados do exército, da qual partes foram publicadas no El País. Esses oficiais agora circularam uma nova carta, denunciando mais uma vez o governo de "comunistas" e enfatizando seu "juramento de defender a integridade da Espanha e a ordem constitucional, dando nossas vidas se necessário".

Iglesias está encobrindo a conspiração de golpe fascista porque o próprio governo PSOE-Podemos teve seu caráter criminoso exposto. Ele implementou uma política de "imunidade de rebanho" da Covid-19, impondo um retorno ao trabalho e às escolas que deixou mais de 65.000 mortos e 1,5 milhões de infectados na Espanha. Ao mesmo tempo, como o desemprego e a fome aumentam, Iglesias participa de uma comissão que distribui bilhões de euros em fundos de resgate da UE para os bancos e corporações.

Iglesias sabe que um movimento da classe trabalhadora contra a ameaça de um golpe fascista também entraria em luta contra seu próprio governo. Ele está se tornando, portanto, cúmplice da ameaça de golpe fascista, tentando desesperadamente escondê-la do público.

Milhões de usuários do Twitter tornaram as mensagens fascistas dos generais aposentados um dos principais trending topics do Twitter na terça-feira. Na quarta-feira, isso foi seguido pelo impulsionamento da hashtag #YoSoyDeLos26Millones (eu sou um dos 26 milhões), comentada por dezenas de milhares de pessoas. Outras milhares de pessoas denunciaram o rei por permanecer em silêncio. Houve muitas referências ao golpe fascista de Franco em 1936, à guerra civil espanhola de três anos que veio em seguida, e ao assassinato em massa de centenas de milhares de trabalhadores de esquerda pelo regime fascista de Franco no final da guerra.

Um usuário do Twitter disse: "Eu também seria um dos primeiros. Como meu avô. Ele foi fuzilado só porque gostava de falar e participar da política. Assim como eu gosto. Ele continua a mastigar terra em sua vala comum".

Outro disse: "Eu sou uma das 26 milhões de pessoas que não vão permitir que isso aconteça novamente. Eles nos terão em sua frente".

Iglesias esperou em silêncio por quatro dias após a primeira publicação de uma das cartas dos oficiais fascistas no El Pais, quando a raiva já fervia nas redes sociais, antes de tomar uma posição pública sobre o assunto. É evidente que sua missão era abafar a crescente indignação entre os trabalhadores e a juventude.

Em sua entrevista, Iglesias promoveu o regime e especialmente o rei, que ainda não rechaçou as cartas, denunciou os signatários ou revelou outros apelos golpistas que tenha recebido. Iglesias disse: "Eu não tenho a menor dúvida de que ele nem sequer lerá a carta". Ele culpou o grupo de WhatsApp por colocar o rei "em uma situação absurdamente desconfortável ... Se alguns cavalheiros franquistas pensam que ao associar o chefe de Estado ao franquismo estão lhe fazendo um favor, eu acho que eles não entendem que isso contribui para que mais e mais espanhóis se sintam republicanos".

Essas são mais mentiras. Primeiro, o rei Felipe e o próprio Iglesias estão sem dúvida lendo atenciosamente as cartas que os oficiais fascistas estão enviando. Iglesias faz parte do conselho que dirige o Centro Nacional de Inteligência da Espanha (CNI), que tem como um dos principais objetivos monitorar as tramas de golpe de Estado do exército. Sabe-se que a CNI identificou e desarticulou planos de golpe de Estado do exército espanhol em 1982, 1985 e 2006. Não pode haver dúvidas de que a CNI está agora reportando sobre os oficiais fascistas a Iglesias e outros líderes do governo.

Além disso, se Iglesias se incomoda com os oficiais franquistas estarem colocando o rei numa posição "desconfortável", não é porque tema um movimento para transformar a Espanha em uma República. Seu temor é que a ameaça da ditadura militar-fascista provoque uma erupção de greves e protestos entre a classe trabalhadora e o desenvolvimento de um movimento político contra o fascismo. Isso ameaçaria inevitavelmente os interesses da oligarquia financeira que ele defende.

Esses eventos são uma prova irrefutável da análise do Comitê Internacional da Quarta Internacional (ICFI) sobre o papel reacionário de partidos pseudoesquerdistas da classe média como Podemos. Esses partidos completaram seu processo de integração à estrutura militar/de inteligência do Estado. A tarefa essencial e crítica na luta contra a pandemia e as ameaças ditatoriais é a construção de seções do CIQI na Espanha e mundialmente, para encabeçar uma luta pelo rompimento político com Podemos e todos os seus satélites políticos, que estão implicados nas manobras de Iglesias.

 

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