A pandemia de COVID-19 e a expropriação da oligarquia financeira

9 Dezembro 2020

Publicado originalmente em 1º de dezembro de 2020

O mês de novembro registrou recordes na disseminação da pandemia. Dezessete milhões de pessoas testaram positivo para o coronavírus em todo o mundo e mais de 272 mil morreram, quase o número total de soldados mortos na batalha mais mortal da Primeira Guerra Mundial, a Batalha do Somme, que durou cinco meses.

Enquanto bilhões de pessoas se preparam para um inverno de dificuldades e doenças, os mercados de ações globais estão comemorando o seu melhor mês em 33 anos, com o índice Dow Jones atingindo 30 mil pontos pela primeira vez em novembro.

Enquanto as mortes crescem em todos os países, a classe dominante está aproveitando a pandemia para organizar uma transferência de riqueza sem precedentes da classe trabalhadora para os ricos.

De acordo com uma pesquisa recente da organização sem fins lucrativos, Save the Children, 75% das famílias em todo o mundo relataram a perda de renda desde o início da pandemia. Estendendo essa porcentagem à população mundial, isso significa que 5,25 bilhões de pessoas estão significativamente mais pobres em novembro do que estavam em janeiro. Destas, 1,05 bilhão de pessoas perderam 100% da sua renda, 1,7 bilhão perderam mais de 75% da sua renda, e outras 1,7 bilhão perderam entre 56% e 75% de sua renda.

Parcela da população mundial que declarou não ter recebido auxílio governamental (Crédito: Save the Children)

A mesma pesquisa relatou que 3,7 bilhões de pessoas, ou 70% dos entrevistados que sofreram perdas econômicas, não haviam recebido qualquer apoio governamental.

O grau de empobrecimento social representado por esses números é quase incompreensível. 90% dos entrevistados na pesquisa disseram ter sofrido uma redução no acesso à saúde em comparação a um ano atrás. Quase dois terços dos entrevistados – 4,3 bilhões de pessoas, se os números forem exatos – estão tendo dificuldades em fornecer alimentos básicos às suas famílias.

Mais de 25% dos pais dizem que seus filhos não possuem qualquer material para estudar durante o ensino remoto – nem mesmo um único livro didático ou para leitura. A estimativa “conservadora” da Save the Children é de que 10 milhões de crianças pobres não retornarão à escola quando a pandemia acabar, dado que, a longo prazo, a pobreza forçará elas a abandonarem os estudos para trabalhar. As taxas de gravidez na adolescência e de violência familiar estão aumentando.

Os trabalhadores nos países "mais ricos" não estão sendo de forma alguma poupados da devastação. De acordo com dados do Departamento do Trabalho dos EUA, há mais empregos bem remunerados agora do que havia em janeiro, e 25% menos empregos de US$ 15 por hora ou menos. Os dados oficiais colocam ainda o total de desempregados em mais de 10 milhões.

Esse dinheiro não "desapareceu", ele foi depositado nas contas bancárias dos super-ricos.

A bipartidária lei CARES transferiu em média US$ 1,6 milhão para cada um dos 43 mil americanos ricos com renda superior a US$ 1 milhão – foi entregue um total de US$ 135 bilhões para aqueles que não precisam.

Estímulo fiscal em 2009 e 2020 (Crédito: Fórum Econômico Mundial)

Os principais países imperialistas forneceram um total de US$ 10 trilhões de estímulo fiscal para os bancos e corporações este ano, tendo já superado enormemente os resgates bancários de 2008-2009. Nos EUA, os resgates corporativos este ano totalizaram mais de 12% do PIB, o dobro de 2009, que custou menos de 6% do PIB. No Japão, Alemanha, Austrália, Reino Unido, Canadá e França, os governos também dobraram, triplicaram ou quadruplicaram o tamanho dos resgates.

Isso tornou os ricos obscenamente mais ricos. De acordo com um relatório de novembro do site Inequality.org, "Entre 18 de março – o início da pandemia de COVID-19 – e 13 de outubro, a riqueza total de 644 bilionários estadunidenses aumentou de US$ 2,95 trilhões para US$ 3,88 trilhões, um aumento de 31,6%".

A riqueza das 10 pessoas mais ricas aumentou em US$ 141 bilhões durante esse período, ou US$ 46.850 por minuto!

A afirmação, repetida em todas as línguas por políticos capitalistas da direita e da chamada esquerda, de que "não há dinheiro" para garantir alimentos, renda integral, assistência médica e livros para a classe trabalhadora mundial é uma mentira.

O fato de que tal riqueza obscena seja gerada por corporações como a Amazon e a Microsoft, que fazem uso das mais avançadas tecnologias e sistemas logísticos conhecidos pela humanidade, é uma contradição gritante, inerente ao capitalismo.

Essas corporações transnacionais, que superam a maioria dos governos em termos de poder e capacidade, acumularam uma enorme riqueza e poder através da exploração do trabalho coletivo dos trabalhadores.

Libertar as forças produtivas das restrições do sistema de lucro capitalista e expropriar a riqueza dos ricos são necessidades urgentes e imediatas, necessárias para combater a pandemia e salvar milhões de vidas.

As inovações técnicas e científicas que existem hoje devem ser aproveitadas pela classe trabalhadora para salvar vidas ao invés da exploração cada vez maior para o lucro.

Em 1880, Friedrich Engels escreveu em Socialismo: Utópico e científico que o socialismo "pressupõe, portanto, o desenvolvimento da produção levado até um grau em que a apropriação dos meios de produção e dos produtos e, com isso, do domínio político... por uma classe particular da sociedade, tornou-se não apenas supérfluo, mas também um obstáculo econômico, político e intelectual ao desenvolvimento".

Engels acrescentou: "A possibilidade de assegurar para cada membro da sociedade, por meio de uma produção socializada, uma existência não apenas materialmente suficiente, e tornando-se a cada dia mais plena, mas uma existência que garanta a todos o livre desenvolvimento e exercício das suas faculdades físicas e mentais – esta possibilidade está agora, pela primeira vez, aqui, mas ela está aqui".

Há aproximadamente 230 mil pessoas na categoria de "Indivíduos de Valor Líquido Ultra Alto", cuja riqueza é superior a US$30 milhões. Combinados, estes 0,0003 % mais ricos da população têm cerca de US$35,5 trilhões. Além disso, as dez maiores bolsas de valores do mundo contêm empresas com um valor combinado de mercado de US$71,6 trilhões.

Essa enorme riqueza acumulada deve ser utilizada para fornecer US$4 mil por mês durante cinco meses para cada adulto no planeta, o suficiente para cobrir a renda total dos trabalhadores durante os lockdowns até que a vacina seja produzida em quantidade suficiente para ser disponibilizada para todo o mundo. Nenhum trabalhador ou pequeno proprietário deve ser forçado a escolher entre morrer de fome e morrer pelo coronavírus.

Os recursos acumulados entre os ricos devem ser utilizados para contratar e treinar imediatamente enfermeiros e construir espaço hospitalar adicional de acordo com a demanda. Nos países mais "ricos" do mundo, os hospitais são sobrecarregados e os pacientes morrem nos corredores. O fato de que o Hospital Mercy na cidade de Chicago, que atende a classe trabalhadora empobrecida na região sul, será fechado nos próximos meses porque não pode dar lucro no meio da pandemia é o auge da irracionalidade capitalista.

A possibilidade de uma vacina mostra que os recursos tecnológicos e logísticos de corporações como a Amazon, Microsoft e Tesla devem ser realocados para garantir a rápida produção e distribuição em larga escala de vacinas seguras para todas as regiões do mundo, incluindo as mais empobrecidas e de difícil acesso.

Essa é a resposta programática do Partido Socialista pela Igualdade (SEP). A sua implementação exige a construção do SEP e o treinamento de uma liderança da classe trabalhadora capaz de realizá-la através da luta revolucionária. Salvar vidas exige pôr fim ao sistema capitalista e romper o controle que a classe capitalista opera em todos os aspectos da vida social e política.

Eric London