Boulos é derrotado em São Paulo e PSOL prepara novas traições

Por Tomas Castanheira
5 Dezembro 2020

Publicado originalmente em 3 de dezembro de 2020

O segundo turno das eleições municipais no Brasil ocorreu no último domingo, duas semanas após o primeiro. Grandes esperanças haviam sido depositadas pela pseudoesquerda e partidos burgueses de “esquerda” na vitória do candidato do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Guilherme Boulos, em São Paulo. A revista Jacobin anunciara internacionalmente: “A maior cidade brasileira pode ter um prefeito socialista em breve”.

Boulos acabou sendo derrotado por Bruno Covas do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB), que se reelegeu como prefeito de São Paulo com cerca de 60% dos votos válidos. A candidatura de Boulos sinalizou, apesar disso, a crescente importância do PSOL para a política burguesa brasileira.

Guilherme Boulos

As eleições municipais de 2020 foram atravessadas pelas condições de crise social generalizada no Brasil, exacerbada pela pandemia de COVID-19. O coronavírus, que atingiu o país em março, continua absolutamente fora do controle. A política criminosa promovida pelo conjunto dos partidos da classe dominante já provocou a morte de mais de 175 mil brasileiros.

A desigualdade social no Brasil, já antes entre as piores do mundo, atingiu um grau intolerável. Quase 10 milhões de trabalhadores perderam seus empregos e outros 11 milhões sofreram rebaixamentos salariais desde o início da pandemia, enquanto os bilionários brasileiros aumentaram substancialmente suas fortunas.

O profundo descontentamento da classe trabalhadora brasileira com sua situação social e com a gestão criminosa do presidente Jair Bolsonaro não resultou, contudo, num afluxo de votos aos partidos tradicionais da “esquerda” burguesa, pelo contrário. O Partido dos Trabalhadores (PT), que governou o país por 14 anos, viu o número de prefeituras sob seu controle diminuir radicalmente e, pela primeira na história, não se elegeu em nenhuma capital brasileira.

A oposição social da classe trabalhadora manifestou-se na rejeição generalizada ao sistema político burguês, que vem crescendo desde as últimas eleições municipais em 2016. Em São Paulo, mais de 30% dos eleitores não compareceu à votação obrigatória no segundo turno. Votos nulos, brancos e abstenções somaram 3,6 milhões, superando os 3,1 milhões de votos do vencedor Bruno Covas. Esse número aumentou mais de 40% em relação às eleições de 2012, quando foi de 2,5 milhões.

O cenário foi ainda mais crítico na segunda maior metrópole brasileira, o Rio de Janeiro. Cerca de 50% da população carioca recusou-se a escolher entre os candidatos de direita Eduardo Paes do Democratas (DEM) e Marcelo Crivella, que concorria à reeleição pelo Republicanos. Apoiado pelo PT e pelo proeminente líder do PSOL do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, Paes venceu a disputa com 1,6 milhões de votos, em contraste com os 2,3 milhões de não-votos.

No dia da eleição, enquanto a classe trabalhadora rejeitava os candidatos burgueses nas urnas, cerca de 2.500 rodoviários do Rio de Janeiro deflagravam uma greve exigindo pagamentos atrasado. Esse acontecimento expressa a situação social cada vez explosiva no Brasil. Dezenas de greves de ônibus semelhantes têm sido realizadas todos os meses pelo país desde o início da pandemia.

Diante das crescentes tensões de classe, que apontam para um iminente estouro da luta social, a classe dominante reconheceu a utilidade política do PSOL, que disputou a direção do principal centro urbano do país e foi eleito numa capital.

A Folha de S. Paulo publicou um editorial às vésperas da eleição intitulado “A vez dos profissionais”, no qual, evitando posicionar-se por Boulos ou Covas, afirmou que ambos são “representantes legítimos do que se convencionou chamar de política profissional”, isto é da política burguesa. Enalteceu os “anos de experiência em liderança de movimentos populares” do candidato do PSOL.

O conservador porta-voz da burguesia paulista, Estado de S. Paulo, declarou-se a favor de Covas, censurando uma “aventura” com a eleição de Guilherme Boulos em São Paulo. O jornal afirmou, entretanto, que “é preciso reconhecer que Boulos mostrou-se amadurecido”. Continuou: “Certamente será, assim, um nome forte da esquerda em disputas futuras, despontando como líder de uma reorganização dos partidos que até há pouco orbitavam o PT e Lula da Silva. No final das contas, esse deve ser seu papel na eleição do domingo que vem”.

A campanha para prefeito de São Paulo foi a segunda vez que o professor universitário Guilherme Boulos concorreu como candidato. Em 2018, ele se candidatou à presidência do Brasil pelo PSOL. Naquela ocasião, recebeu cerca de 600 mil votos nacionalmente, ou 1,5 milhões de votos a menos do que teve no segundo turno das eleições em São Paulo.

Antes de se unir ao PSOL em 2018, Boulos fez sua carreira política no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), organização em que ingressou quando era ainda estudante universitário. O MTST surgiu no final dos anos 1990 como um desdobramento urbano do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Reivindicando os métodos e concepções políticas desse movimento camponês em defesa da reforma agrária, o MTST promove a ocupação de terrenos abandonados em grandes cidades, onde exige que o Estado financie a construção de habitações populares.

O artigo da Jacobin descreve uma aparição mítica da figura de Boulos na política brasileira em 2003, ano de inauguração do primeiro mandato de Lula. Naquele ano, o MTST “ocupou um enorme terreno abandonado da Volkswagen” em São Bernardo do Campo, o berço político do PT. “Aquele gesto ousado e até provocativo”, diz a revista pseudoesquerdista, “lançou Boulos a uma posição de destaque em um setor, até aquele momento quase insignificante: a oposição de esquerda ao governo do PT”.

Essa suposta “oposição ao governo do PT” desenvolveu-se, na realidade, como uma relação de profunda dependência material. O MTST foi alavancado nacionalmente através do programa habitacional petista Minha Casa Minha Vida, que canalizou verbas para o movimento de Boulos gerenciar a construção de moradias populares. As ocupações e outras ações de “pressão” ao governo realizadas pelo MTST serviam como fachada pseudo radical às operações do Estado burguês.

Notavelmente, um manifesto lançado por “um grupo de 50 empresários e executivos do setor produtivo e financeiro” em apoio à candidatura de Boulos em São Paulo enalteceu sua experiência com o MTST, descrevendo Boulos como “um bem-sucedido empreendedor social e político”. O manifesto continua: “Ele descola de um certo anacronismo da esquerda em temas como trabalho, empreendedorismo e parcerias com setor privado”.

Diferente do que afirma a Jacobin, Boulos jamais foi socialista. Durante sua campanha, enfatizou que suas políticas chamadas de “radicais” respeitam estritamente os limites da legislação burguesa brasileira, e que ele pretende combater apenas os “esquemas mafiosos” na cidade.

Boulos conquistou um papel proeminente na política nacional com a crise da administração petista, balançada pela recessão da economia capitalista brasileira e culminando no impeachment da presidente Dilma Rousseff no final de 2015. A imagem farsesca de Boulos como um líder popular desvinculado das traições do PT converteu-lhe no representante ideal da pseudoesquerda pequeno-burguesa articulada no PSOL.

O PSOL se prepara conscientemente para repetir no Brasil o tipo de traição cometida pelo Syriza na Grécia e o Podemos na Espanha, com os quais partilha do mesmo “populismo de esquerda” e hostilidade ao socialismo e à classe trabalhadora. A campanha de Boulos em São Paulo representou um importante passo nesse sentido.

Pela primeira vez, o PSOL ocupou o centro de uma unidade eleitoral com partidos burgueses, e não o contrário. Essa articulação foi celebrada com o lançamento de uma chamada “Frente Democrática” no segundo turno, que envolveu, além do PT, o Partido Democrático Trabalhista (PDT) de Ciro Gomes, o “eco-capitalista” Rede Sustentabilidade de Marina Silva, e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) maoísta.

Demonstrando sua total submissão a seus parceiros burgueses, Boulos declarou: “Quero compor uma aliança porque não tenho arrogância de achar que sei tudo, que vou governar a cidade sozinho, que somos autossuficientes”. Essa patética demonstração de humildade não passa de uma fachada para a completa falta de princípios desse impostor pequeno-burguês e sua disposição a aceitar quaisquer tarefas exigidas pela classe dominante.

Nas eleições, o PSOL acompanhou a guinada à direita do conjunto da classe dominante brasileira. Promoveu uma série de candidatos militares, supostamente disputando a base do fascista Bolsonaro. Boulos reforçou essa política fazendo uma firme defesa da Guarda Civil Metropolitana (GCM) de São Paulo, argumentando que o “problema da segurança pública” só pode se resolver com a contratação de mais policiais e fazendo-os presentes nos bairros.

Um aprofundamento dessa linha política reacionária está sendo preparado, como Boulos deixou claro em uma entrevista publicada na Jacobin no último 28 de novembro. “É uma tarefa nossa trabalhar para deixar o bolsonarismo o mais isolado possível na sociedade”, ele disse. “Isso significa inclusive ver com bons olhos que setores da velha direita brasileira se distanciem e se descolem do bolsonarismo.” Boulos defendeu abertamente uma aliança com esses setores de direita, promovendo uma “articulação antibolsonarista... em que caibam todos aqueles que comunguem dessa bandeira”.

Essas linhas servem como condenação política não apenas do PSOL, mas de todas as correntes políticas que fomentam ilusões neste partido oportunista pequeno-burguês.

Expressando os interesses e a mentalidade da alta classe média, o filósofo pós-moderno reverenciado pela pseudoesquerda brasileira, Vladimir Safatle, declarou que a eleição de Boulos em São Paulo significaria o “começo do fim do fascismo ordinário que hoje governa o país”. Essa afirmação se baseia numa total negação das bases materiais objetivas que dão origem ao fascismo na sociedade, isto é, a crise mortal do sistema capitalista, do qual o PSOL é um ávido defensor. Exortando seu idealismo reacionário, Safatle concluiu apelando a uma transformação simbólica da sociedade: “Tomemos o poder. É hora de dar outro sentido à palavra ‘governo’”.

Não à toa, Safatle foi um dos apoiadores públicos da candidatura dos morenistas do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), vinculado À Fração Trotskista (FT-CI), lançada pelo PSOL em São Paulo. Ambos se baseiam nos mesmos interesses de classe reacionários e na hostilidade ao marxismo.

Os alertas do World Socialist Web Site à guinada à direita do PSOL e o acobertamento dessas manobras pelos morenistas provaram-se totalmente corretos. Uma luta genuína contra a desigualdade social e o crescimento do fascismo só pode ser travada através da mobilização independente da classe trabalhadora, lutando por um programa socialista e internacionalista e contra a influência da pseudoesquerda pequeno-burguesa.

O Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) e seus apoiadores do Grupo Socialista pela Igualdade (GSI) são os únicos verdadeiros defensores dessa perspectiva revolucionária no Brasil.

 

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