Eleições municipais brasileiras revelam guinada à direita dos principais partidos

Por Miguel Andrade
30 Setembro 2020

Publicado originalmente em 23 de setembro de 2020

A última quarta-feira, 16 de setembro, marcou o fim do período de realização das convenções partidárias antes das eleições municipais de novembro no Brasil. As eleições escolherão prefeitos e vereadores em todos os 5.570 municípios do Brasil.

As eleições municipais deste ano estão sendo realizadas sob circunstâncias extraordinárias. O presidente fascistoide do Brasil, Jair Bolsonaro, tem defendido desde os primeiros registros de casos de COVID-19 no país uma política de imunidade do rebanho.

Ele chamou a doença de "uma gripezinha", alegou sem apresentar nenhuma evidência científica que o clima quente e a população mais jovem do país reduziriam o impacto da pandemia e proclamou como política governamental a concepção eugenista de que brasileiros "saudáveis" não seriam afetados pela doença e que, inversamente, "metade dos mortos iria morrer de qualquer forma". Isso significava que nada deveria ser feito para deter a propagação da pandemia.

Mais tarde, quando a Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu autonomia aos governadores e prefeitos para tomar decisões sobre questões de saúde, e as cidades e estados começaram declarar quarentenas parciais, ele se lançou contra as autoridades locais, culpando-as pelo desemprego e perda de renda, e demitiu dois ministros da saúde que não concordavam com sua promoção de falsas curas para a doença. Governadores e prefeitos de todos os partidos políticos, que inicialmente haviam fingido preocupação com a saúde dos trabalhadores, já estão implementando um retorno homicida às aulas, a última grande atividade a enfrentar restrições no país.

Ainda na semana passada, Bolsonaro resumiu suas políticas, agora abraçadas por todo o establishment político, com auto-elogios por nunca ter exigido quarentenas e insultando aqueles que tomam medidas de distanciamento social e exigem o direito a um local de trabalho seguro como “fracos".

O resultado foi mais de 4,5 milhões de infecções e mais de 138.000 mortes. A taxa de transmissão, que mal foi controlada no último mês em todo o país, se mantém em 30.000 novos casos por dia, com mais de 700 mortes diárias, e já está subindo novamente em muitas regiões. O desemprego, antes escondido pelas medidas de quarentena, saltou para 14,3% em agosto.

Em resposta a esta crise, os conflitos dentro da classe dominante brasileira centram-se em grande parte na política externa, enquanto há um consenso sobre uma agenda pró-austeridade e repressiva dentro do país, em preparação para uma reação da classe trabalhadora à crise capitalista.

Por um lado, a classe dominante brasileira enfrenta uma crise sem solução decorrente da impossibilidade de sustentar a posição de "neutralidade" que ela havia buscado manter durante as primeiras décadas do século XXI diante da crescente agressividade do imperialismo americano contra a China, à medida em que esta última superou o primeiro para se tornar a principal parceira comercial do Brasil.

Aquela posição, facilitada pelo chamado "boom das commodities", foi abruptamente abandonada após o impeachment fraudulento da presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff, em 2016, com setores decisivos da classe dominante buscando orientar o Brasil para um alinhamento com o imperialismo norte-americano.

Tensões sobre a política externa foram reveladas durante o fim de semana, com o Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, reagindo fortemente à provocação encenada pelo Ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, um representante da extrema-direita do país, com o Secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo na fronteira Venezuela-Brasil na sexta-feira. Maia por pouco não acusou Araújo de um crime. Mais tarde, Maia foi apoiado por uma carta conjunta assinada por todos os ex-ministros das Relações Exteriores de governos civis desde 1985, que chamou a visita de Pompeo de "utilização espúria do território nacional". Nos dias que antecederam a visita de Pompeo, o jornal conservador Estado de S. Paulo expressou em termos duros as tensões dentro da classe dominante, escrevendo em editorial: "Jair Bolsonaro submete, mais uma vez, o interesse nacional à sua inabalável disposição de se alinhar acriticamente aos interesses de Donald Trump, mais até do que aos interesses dos Estados Unidos, o que já seria por si só inaceitável."

O consenso em matéria de política interna é resumido pelo voto quase unânime do Congresso a favor de um resgate ao mercado financeiro no início da pandemia e pela campanha universal de retorno às aulas por parte dos governadores e prefeitos que anteriormente se faziam passar por defensores da "ciência" contra Bolsonaro.

Também revelador politicamente é o número recorde de membros das forças armadas e policiais que concorrem nas eleições de novembro, que deve mais que dobrar desde as últimas eleições municipais, para mais de 2.200 candidatos. Ainda mais significativo é o fato de que os candidatos militares estão sendo promovidos em cidades-chave pelos partidos auto-intitulados "esquerdistas" e "socialistas" como o PT e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que surgiu do primeiro.

A política por trás da inscrição recorde de policiais nas eleições é a reacionária defesa do Estado capitalista brasileiro contra a imprudência de Bolsonaro, e dos comandantes militares que o cercam como os "adultos na sala", forças supostamente moderadoras e comprometidas com os interesses nacionais. Esta tem sido a marca registrada da oposição liderada pelo PT desde os primeiros dias após sua eleição em 2018.

No crucial primeiro mês da propagação da pandemia no Brasil, o ex-candidato presidencial do PT, Fernando Haddad, assinou uma carta pedindo a renúncia de Bolsonaro em favor de seu vice-presidente, o General Hamilton Mourão, um golpista ultra-direitista, como o meio "menos custoso" para uma saída democrática da presidência de Bolsonaro.

As eleições para prefeito são vistas como um momento crucial para consolidar estas políticas da maneira descrita da melhor forma por Guilherme Boulos, o candidato a prefeito do pseudo-esquerdista PSOL na maior cidade do Brasil, São Paulo. Boulos as descreveu em sua conta no Twitter como uma "frente ampla" ou uma "tática de cebola" onde "a camada mais ampla é a luta pela democracia contra o fascismo, nesta todos se encaixam... Talvez o melhor exemplo seja o movimento das ‘Diretas Já’ no final da ditadura militar.” Nesse movimento por eleições diretas, explicou ele, havia "oligarcas que romperam com a ditadura" lado a lado com líderes do Partido Comunista e do PT. Mais tarde ele acrescentou que "as eleições municipais deste ano serão um momento chave ... para combater Bolsonaro e seu projeto fascista", ou seja, para empregar a "tática da cebola" de alianças com "oligarcas" que romperam com Bolsonaro.

Tais políticas serviram apenas para fortalecer os facilitadores de Bolsonaro no Congresso e nos governos locais, bem como os partidos de direita que anteriormente dominavam o sistema político. A escolha dos candidatos militares pelo PT, dos quais a mais destacado é uma major da Polícia Militar de Salvador, no estado da Bahia, a quarta maior cidade do país, teve um efeito semelhante.

"Caminhando para o precipício", enfrentando uma "derrota histórica", sob o risco de "perder todas as capitais", são as expressões para descrever as perspectivas eleitorais do PT e do PSOL que aparecem nos veículos pró-PT, como Brasil 24/7 e Revista Fórum, bem como em entrevistas com aliados do PT, como o governador do empobrecido estado do nordestino do Maranhão, Flávio Dino, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

A crise das candidaturas do PT é exemplificada pelos números sombrios de seu candidato em São Paulo, onde seu candidato presidencial em 2018, Fernando Haddad, foi liquidado em sua tentativa de reeleição como prefeito em 2016. Haddad sofreu uma derrota sem precedentes para um prefeito em exercício de São Paulo, recebendo apenas 17% dos votos, perdendo todos os bairros de classe trabalhadora do “cinturão vermelho” da periferia da cidade e obtendo seu melhor desempenho na zona oeste da cidade, habitada pela classe média alta.

Este ano, o candidato a prefeito do partido, o vereador Jilmar Tatto, tem apenas 2% das intenções de voto. Figuras importantes do PT, como o ex-Ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, apoiam publicamente aquele que é percebido como "oposição de esquerda" ao partido, Guilherme Boulos, levando a líder do PT Gleisi Hoffmann a ameaçar os membros dissidentes da cidade com ações disciplinares se eles apoiarem Boulos em vez de Tatto.

O PT agora está tentando resolver a crise convocando o ex-presidente Lula para dar à linha pró-militar e direitista do partido um verniz de esquerda. Esta nova campanha foi iniciada no Dia da Independência do Brasil, em meio às convenções partidária, com um discurso nacionalista de vinte minutos do próprio Lula transmitido pelas redes sociais do partido.

O discurso combinou duras críticas à negligência criminosa de Bolsonaro em relação à pandemia e ao crescimento da desigualdade social - um produto direto dos resgates financeiros que o PT apoiou no Congresso - com acusações de que o imperialismo americano esteve envolvido na remoção de Dilma em 2016 e no impedimento de que Lula concorresse às eleições de 2018 por meio de acusações de corrupção. Lula insistiu que, "como a maioria dos brasileiros, não acredito e não aceito os chamados pactos ‘pelo alto’ com as elites", precisamente o tipo de pacto que está sendo assinado pelos líderes de seu próprio partido.

Sua conclusão ressaltou a linha nacionalista cada vez mais raivosa que está sendo defendida pelo PT. "O mais grave de tudo isso é que Bolsonaro aproveita o sofrimento coletivo para, sorrateiramente, cometer um crime de lesa-pátria", disse ele, acrescentando que isto "submete nossos soldados e nossos diplomatas a situações vexatórias".

As frases de Lula contra "pactos pelo alto com as elites", combinadas com críticas ao imperialismo norte-americano - cujo papel ele e Dilma geralmente descartaram mesmo quando confrontados com revelações públicas de ações de Washington, como a espionagem da NSA do gabinete de Dilma em 2013 - são uma tentativa de dar uma face de esquerda às políticas impopulares de "frente ampla" que o PT tem promovido.

Este é o mesmo papel essencialmente desempenhado por Bernie Sanders no Partido Democrata dos EUA ou por Jeremy Corbyn no Partido Trabalhista Britânico. Entretanto, o PT não está usando uma figura de "outsider" ou "parlamentar tradicional", mas reciclando o mesmo velho Lula, que antes se gabava de ser "respeitado" por criminosos de guerra como George W. Bush e Barack Obama e ajudar os bancos brasileiros a "ganhar mais dinheiro do que nunca".

Não obstante a retórica de esquerda de Lula, sua denúncia de "crimes de lesa-pátria" e sua denúncia da "humilhação dos soldados" representa uma defesa explícita do Estado capitalista em condições nas quais ele enfrenta a crescente ameaça de uma convulsão social da classe trabalhadora brasileira.

 

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