A campanha global para reabrir escolas e a estratégia internacional da classe trabalhadora

5 Setembro 2020

Publicado originalmente em 4 de setembro de 2020

O esforço para reabrir escolas tornou-se o centro da luta de classes em vários países do mundo. As tentativas das elites dominantes de forçar professores e alunos a voltar às salas de aula, a fim de fazer os pais a voltar ao trabalho para produzir lucros, têm sido confrontadas com uma resistência cada vez maior de educadores, pais, alunos e da classe trabalhadora em geral.

O impulso para reabrir escolas já está tendo consequências catastróficas na propagação da pandemia de COVID-19, que está fora de controle em todo o mundo. A cada dia, nas últimas duas semanas, cerca de 260.000 pessoas foram infectadas e 5.500 pessoas morreram em todo o mundo devido às políticas criminalmente negligentes seguidas pelos governos. Os países mais atingidos – incluindo os EUA, Reino Unido, Brasil e Suécia – são liderados por autoridades que procuram conscientemente desenvolver a “imunidade de rebanho” com infecções e mortes em massa.

Os Estados Unidos, o centro do capitalismo mundial, são a expressão mais nítida do impulso internacional para a reabertura de escolas. Desde o início de julho, a administração Trump tem dado declarações quase diárias insistindo que todas as escolas sejam reabertas – desde dizer que “a ciência não deve atrapalhar” a reabertura de escolas, passando pelos educadores sendo considerados “trabalhadores de infraestrutura crítica” até a ameaça de desviar fundos de escolas públicas que não forem reabertas para escolas privadas, paroquiais e charters para que assim o façam.

Mais recentemente, Trump nomeou Scott Atlas, que faz parte da direitista Hoover Institution da Universidade de Stanford, para dar a sanção oficial à campanha homicida. O país modelo apontado por Atlas e que os EUA devem seguir é a Suécia. No mês passado, foi revelado que o epidemiologista chefe da Suécia, Anders Tegnell, estimulou explicitamente manter as escolas abertas para facilitar o desenvolvimento da “imunidade de rebanho”. Como resultado, o número de mortes por COVID-19 na Suécia é mais de nove vezes maior do que o de sua vizinha Finlândia. A implementação dessa política nos EUA poderia matar milhões.

Na segunda-feira, Atlas visitou Tallahassee, na Flórida, onde pediu ao governador republicano Ron DeSantis que fosse ainda mais agressivo na reabertura de escolas. Já 1,1 milhão de estudantes da Flórida retomaram o aprendizado presencial, sem dúvida contribuindo para as 9.200 novas infecções entre as crianças na segunda quinzena de agosto. Houve um aumento de 191% nas crianças infectadas desde 9 de julho, antes da reabertura das escolas. Pelo menos 611 crianças foram hospitalizadas no estado, e oito morreram.

Da mesma forma, o Partido Democrata e seus apoiadores nos sindicatos de professores estão em pleno acordo com a campanha de reabertura de escolas. Sua única diferença é que, em vez de usar a força bruta, eles avançam a alegação fraudulenta de que a reabertura de escolas pode ser feita “com segurança” através da implementação de medidas cosméticas.

Na segunda-feira, o presidente do sindicato de professores de escolas públicas de Nova York (United Federation of Teachers – UFT), Michael Mulgrew, anunciou um acordo com o prefeito Bill de Blasio para forçar centenas de milhares de alunos a voltarem às salas de aula no maior distrito escolar dos EUA. As medidas de segurança tomadas são totalmente inadequadas e não farão nada para evitar a disseminação do vírus pela cidade e pela região.

Em um discurso de campanha na quarta-feira, o candidato democrata à presidência Joe Biden declarou: “Fazer com que nossas escolas sejam abertas de forma segura e eficaz, esta é uma emergência nacional”. Biden ofereceu apenas críticas táticas a Trump por sua “incapacidade de garantir que educadores e gestores tenham os equipamentos, os recursos e o treinamento necessário para abrir com segurança nas circunstâncias que encontramos agora”.

O New York Times, o porta-voz do Partido Democrata, publicou na quarta-feira um artigo de Nicholas Kristoff no qual ele insistia “que façamos todo o possível para permitir que as crianças retomem com segurança o aprendizado presencial”. Ele acrescentou: “É absurdo que tenhamos permitido que lojas de bebidas, academias, lojas de armas, restaurantes e lojas de maconha funcionem enquanto mantemos as escolas fechadas”.

As mesmas políticas da classe dominante estão sendo seguidas no mundo todo, com resultados desastrosos para a classe trabalhadora.

No Brasil, o país com o segundo maior número de casos de COVID-19 e mortes depois dos EUA, o presidente fascista Jair Bolsonaro está confiando nos políticos estaduais e municipais para reabrir escolas em todo o país, incluindo a suposta oposição representada pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Na primeira semana de retomada das aulas em Manaus, capital do estado do Amazonas, surgiram surtos de COVID-19 em 36 escolas.

No Reino Unido, a administração Boris Johnson não exige que professores ou alunos usem máscaras nas salas de aula. Da mesma maneira que os democratas nos EUA, o Partido Trabalhista sob o líder de direita blairista Sir Keir Starmer apoia totalmente a campanha para reabrir escolas, ao mesmo tempo em que oferece críticas inúteis.

O establishment político alemão começou a reabrir escolas no início de agosto como parte de uma reabertura mais ampla da economia, o que imediatamente causou surtos em todo o país. Existem planos para reabrir escolas em toda a Europa, inclusive na Itália e na Espanha, os países mais atingidos nos meses iniciais da pandemia. As escolas reabriram em toda a França na terça-feira, enviando 12 milhões de alunos de volta às salas de aula enquanto a pandemia se espalha mais uma vez por todo o país.

Na Rússia, as escolas reabriram em todo o país na terça-feira, no mesmo dia em que o país ultrapassou um milhão de casos de COVID-19. As autoridades não estão tomando precauções e nem mesmo exigem que professores ou alunos usem máscaras. O presidente russo Vladimir Putin declarou na terça-feira que não há planos de transição para o aprendizado totalmente on-line caso surjam surtos em escolas.

Em todos os países, estas políticas estão provocando uma enorme oposição. Centenas de protestos têm ocorrido em todo o mundo para denunciar a reabertura de escolas. Mais de 100 grupos no Facebook se formaram para se opor à reabertura de escolas, atraindo centenas de milhares de participantes em todo o mundo. Educadores, pais e estudantes começaram a implementar comitês de base de segurança independentes nos EUA, Alemanha, Grã-Bretanha e Austrália, e há uma disposição cada vez maior para uma greve nacional e até mesmo internacional contra a reabertura de escolas.

Uma pesquisa com mais de 200 educadores e pais britânicos realizada recentemente pelo World Socialist Web Site descobriu que mais da metade dos entrevistados disse que participaria de uma greve geral para impedir a reabertura de escolas. Neste sábado, o Partido Socialista pela Igualdade (Reino Unido) realizará uma reunião on-line para organizar a oposição generalizada contra a reabertura de escolas, o que tem atraído grande interesse.

Na Alemanha, uma reunião pública organizada pelo Sozialistische Gleichheitspartei no último fim de semana atraiu centenas de professores, alunos e pais de todo o país. Estudantes de Dortmund criaram recentemente um comitê em sua escola para organizar a oposição contra a reabertura de escolas e lutar por condições seguras de ensino.

O instituto de pesquisa Datafolha descobriu recentemente que 80% dos brasileiros se opõem à reabertura de escolas, enquanto 60% reconhecem que esta política “agravará severamente a pandemia”. Há um enorme apoio à greve nacional, que se somaria a uma greve em andamento dos trabalhadores dos Correios, mas a Confederação Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE) e outros sindicatos estão fazendo tudo o que podem para evitar que isso aconteça.

O Comitê de Base de Segurança nos EUA, criado há três semanas, tornou-se rapidamente um polo de atração para aqueles que se opõem à reabertura de escolas. Centenas de educadores, pais, estudantes e outros trabalhadores em todos os EUA e internacionalmente participaram de duas reuniões on-line promovidas pelo comitê. Na semana passada, o Comitê de Base de Educadores do Condado de Duval foi formado para organizar a imensa oposição de educadores na região de Jacksonville, na Flórida, enquanto comitês parecidos estão sendo criados na cidade de Nova York, Detroit, Texas, Havaí e outras cidades e estados em todo o país.

Diante de uma campanha global das elites dominantes, que têm a intenção de reabrir escolas e acelerar a propagação da pandemia, a classe trabalhadora deve ser guiada por uma perspectiva global. Enquanto os sindicatos de professores em cada país promovem o nacionalismo e subordinam os interesses da classe trabalhadora às necessidades do sistema de lucro, a pandemia é uma crise internacional que só pode ser enfrentada através da luta globalmente coordenada da classe trabalhadora.

A tarefa central de educadores, pais, estudantes e toda a classe trabalhadora é construir redes de comitês de base de segurança em todos os países para mobilizar a força coletiva da classe trabalhadora como uma força social independente. A reabertura imprudente de escolas deve ser detida, e os vastos recursos gastos com o resgate da oligarquia corporativa e financeira devem ser redirecionados para fornecer tecnologia de ponta para o aprendizado remoto, testagem universal e a devida segurança de renda e cuidados de saúde de alta qualidade a todos aqueles afetados pela infecção mortal.

O Partido Socialista pela Igualdade nos EUA e seus partidos irmãos do Comitê Internacional da Quarta Internacional estão lutando para unir o crescente movimento da classe trabalhadora com a perspectiva política e o programa do socialismo mundial, ou seja, a reorganização racional e democraticamente planejada da sociedade para atender às necessidades humanas e não ao lucro privado.

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Evan Blake