O julgamento de fachada de Julian Assange: Uma farsa cruel e pseudolegal

17 Agosto 2020

Publicado originalmente em 15 de agosto de 2020

A audiência de ontem em Londres mostrou claramente, se mais alguma prova era necessária, que a acusação de Julian Assange é um vergonhoso e degradante julgamento de fachada, com o objetivo de condenar um homem inocente à prisão ou à morte por revelar os crimes do imperialismo estadunidense.

Em um processo falho, Assange não foi inicialmente levado à sala multimídia para participar da audiência. Além disso, os promotores estadunidenses não compareceram depois de errarem o horário da audiência, e, com apenas cinco observadores permitidos no tribunal, nenhum dos jornalistas e observadores legais tiveram permisão para ouvir a audiência remotamente.

Assange, o prisioneiro político mais famoso do mundo, foi negado o acesso aos seus advogados desde março. Desde então, ele não vê sua família ou seus filhos.

Na ação mais grave de todas, apenas dois dias antes da audiência, o Departamento de Justiça dos EUA, sob o ideólogo autoritário de direita, William Barr, emitiu uma acusação completamente nova contra Assange, que o acusado sequer pôde ler antes da audiência.

"O governo dos EUA parece querer mudar a acusação toda vez que o tribunal se reúne, mas sem que a defesa ou o próprio Julian veja os documentos relevantes", disse o editor-chefe do WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson.

Menos de 24 horas antes do início da audiência final do processo e menos de quatro semanas antes do reinício do julgamento de extradição, Barr assinou um novo pedido de 33 páginas para que Assange fosse enviado do Reino Unido para os Estados Unidos.

A acusação substitutiva, na qual se baseia o novo pedido de extradição, foi divulgada em 24 de junho, mas os promotores estadunidenses se recusaram a confirmar durante duas audiências, em 30 de junho e 28 de julho, quando exatamente ela seria introduzida no processo legal do Reino Unido.

O novo pedido de extradição foi apresentado após a equipe jurídica de Assange ter submetido todas as suas provas. A defesa argumentou que prosseguir com base em uma nova acusação equivaleria a um abuso do devido processo legal. A juíza Baraitser recusou o pedido da defesa, permitindo-lhes, ao invés disso, solicitar um adiamento da audiência.

A equipe jurídica de Assange está sendo confrontada com a escolha entre aceitar a continuação da sabotagem do seu caso e colocar a vida de Assange em risco com mais tempo de prisão.

Mesmo enquanto a pandemia da COVID-19 atravessa o sistema penitenciário britânico, Assange permanece preso em Belmarsh. Especialistas médicos que o examinaram relatam que a sua saúde está se deteriorando e que ele pode morrer na prisão.

A nova acusação amplia o escopo do que é chamado de atividade criminosa. A acusação de "divulgação não autorizada de informações de defesa" responsabilizava anteriormente Assange simplesmente por "publicar [os registros da guerra do Afeganistão e do Iraque e os cabos do Departamento de Estado] na internet". Isso foi expandido, incluindo a "distribuição" dos documentos, por exemplo, para outras organizações da mídia.

Pessoas associadas à Assange, como Sarah Harrison, Jacob Applebaum e Daniel Domscheit-Berg, antigamente um colaborador do WikiLeaks, agora também são alvos, sendo chamados de "co-conspiradores". Os esforços para ajudar um denunciante perseguido (Edward Snowden) a receber asilo e até mesmo para falar em defesa das suas ações são criminalizados, assim como as declarações mais gerais a favor da transparência do governo.

Estes detalhes mostram que, enquanto Julian Assange esteve isolado na prisão e incapaz de se reunir com os seus advogados, o governo dos EUA tem preparado o seu caso de extradição e expandido o escopo da sua vingança contra todos aqueles que ajudaram o WikiLeaks a levar a verdade às pessoas de todo o mundo.

Julian Assange, que enfrenta 175 anos na prisão federal por expor os crimes de guerra dos EUA no Iraque e no Afeganistão, que custaram dezenas de milhares de vidas, está sendo perseguido como parte de um esforço internacional da elite dominante para incriminar os denunciantes, jornalistas e dissidentes políticos.

A conspiração do governo contra Julian Assange é a ponta de lança de uma ofensiva contínua contra os direitos democráticos, tendo como alvo a classe trabalhadora. O crime de Assange aos olhos de seus perseguidores é a sua exposição dos crimes de guerra imperialistas e intrigas diplomáticas que impulsionaram o sentimento de oposição em massa em todo o mundo.

A nova acusação foi elaborada por Barr, que apareceu na Fox News seis dias antes para denunciar um amplo grupo de opositores políticos de Trump, chamando-os de "revolucionários" e "bolcheviques" com a intenção de "derrubar o sistema". Barr dá voz ao verdadeiro escopo dos planos de Trump para impor uma ditadura presidencial.

Esses acontecimentos são uma dura condenação de todas as forças políticas que se mantiveram em silêncio ou apoiaram a perseguição de Assange. Isso inclui o Partido Democrata nos Estados Unidos, que liderou o ataque ao WikiLeaks como parte da sua campanha neo-Macartista contra a Rússia. Os candidatos democratas nas eleições de 2020, Joe Biden e Kamala Harris, foram ambos participantes entusiastas nessa vingança reacionária e antidemocrática.

Enquanto isso, a mídia liberal, liderada pelo Guardian e pelo New York Times, abandonou Assange. É significativo que nem uma única grande organização de notícias nos EUA sequer se preocupou em noticiar a audiência de ontem. Nenhuma das publicações pseudo-esquerdistas, como a Nation ou a revista Jacobin, noticiou o ataque aos direitos fundamentais que acontecia no tribunal de Londres.

Previsivelmente, os autointitulados socialistas, Bernie Sanders, Jeremy Corbyn, Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib, não disseram nada sobre a farsa pseudolegal de ontem.

A responsabilidade política pela capacidade da administração Trump nos EUA e do governo Johnson no Reino Unido de continuar com seu esforço conjunto para silenciar Assange recai sobre toda a fraternidade da pseudo-esquerda, que se afileirou contra Assange, reciclando as difamações e mentiras do Departamento de Estado, do Pentágono e da CIA sobre as alegações suecas, a suposta falha em destacar partes sensíveis dos documentos, e outras mentiras.

Aqueles que estão participando da campanha oficial em torno do WikiLeaks buscando direcionar a defesa de Assange aos apelos aos “esquerdistas” do Partido Trabalhista britânico, aos burocratas sindicais e ao principal perseguidor de Assange, o Partido Democrata nos Estados Unidos, estão cometendo uma fraude política que impede um movimento genuíno pela liberdade de Assange.

O WSWS renova o seu chamado para que a classe trabalhadora defenda Julian Assange. A classe trabalhadora deve tornar clara a conexão fundamental entre a acusação contra Assange, a defesa dos direitos democráticos e a luta contra o sistema capitalista, que está levando o mundo à guerra e ao barbarismo.

A luta pela liberdade de Assange é inseparável da mobilização de um movimento político massivo na luta pelo socialismo contra a guerra imperialista, a desigualdade social e o movimento em direção às formas de governo ditatoriais.

Thomas Scripps e Kevin Reed