Classe social, capitalismo e o assassinato de George Floyd

13 Junho 2020

Publicado originalmente em 11 de junho de 2020

O funeral de George Floyd na terça-feira em Houston, no Texas, aconteceu após duas semanas de grandes protestos contra a violência policial, que estouraram depois da divulgação do vídeo de seu assassinato por quatro policiais de Minneapolis.

Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em todos os estados dos EUA e em dezenas de cidades ao redor do mundo. Esses protestos espontâneos, unindo manifestantes de todas as raças e etnias, têm sido motivados não apenas por um sentimento avassalador de indignação e revolta contra o assassinato de um negro desarmado pela polícia, mas também por uma raiva mais ampla contra a brutalidade, a injustiça e a desigualdade social que permeiam a sociedade estadunidense.

É a experiência de milhões de jovens e trabalhadores comuns com a brutal realidade dos EUA que está por trás da resposta explosiva à agonia final de Floyd.

Manifestantes se reúnem para homenagear George Floyd no local onde foi morto em 1º de junho de 2020, em Minneapolis. (AP Photo/John Minchillo)

As manifestações têm expressado um forte desejo de fundamental mudança. Nesse movimento, há um número crescente de pessoas que reconhecem que a brutalidade policial é uma manifestação de profundos males sociais, enraizada na estrutura econômica da sociedade e na extrema concentração da riqueza dentro de um pequeno segmento da população. Essa consciência crescente, que tende inevitavelmente ao socialismo e à rejeição explícita do capitalismo, assusta a classe dominante. Por isso, ela está fazendo de tudo para desviar o movimento de massas para canais politicamente controláveis. Essa é a função da narrativa racial que domina toda discussão oficial sobre a brutalidade policial e o assassinato de George Floyd.

Vale a pena relembrar as diferentes etapas da resposta da classe dominante ao seu assassinato.

Incialmente, tentou-se encobrir o assassinato de Floyd como acontece com todo assassinato policial. Nenhum dos policiais envolvidos foi indiciado ou preso. O vídeo de sua morte, que viralizou nas redes sociais, quebrou a narrativa de que era apenas mais uma morte sob custódia policial e provocou uma erupção de raiva acumulada há muito tempo.

Após o choque inicial do establishment político com a resposta ao assassinato de Floyd, com noites seguidas de protestos, primeiro nas ruas de Minneapolis e depois em todo o país, a classe dominante respondeu com toda a força do estado. A polícia bateu e feriu manifestantes, lançou bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, atirou balas de borracha e utilizou spray de pimenta. Os manifestantes pacíficos foram caluniados como desordeiros e saqueadores, enquanto os jornalistas foram alvo de agressão e prisão. Mais de dez mil manifestantes foram presos – a maioria por violar o toque de recolher estabelecido por prefeitos democratas –, centenas ficaram feridos e muitos foram mortos durante a investida policial. A Guarda Nacional foi enviada a dezenas de estados para ajudar na repressão.

O auge da repressão ocorreu em Washington, DC, onde o presidente Donald Trump tentou colocar em marcha um golpe de estado militar. Esse plano fracassou, pelo menos por enquanto, não por causa da oposição do Congresso (que não reagiu), mas porque setores dos militares temiam que sua intervenção prematura pudesse desencadear uma resistência violenta e uma guerra civil para a qual o Pentágono ainda não está preparado adequadamente.

Nessa situação instável, o Partido Democrata, a grande imprensa e as grandes corporações têm mudado as engrenagens para a fase de cooptação, buscando reenquadrar as questões que motivaram jovens e trabalhadores a saírem às ruas de uma maneira mais adequada à classe dominante. O papel que o racismo desempenha na violência policial foi ampliado para abafar todas as outras questões sociais.

Enquanto o funeral de Floyd permitiu que sua família e o público que se mobilizou ao seu lado expressassem genuinamente o seu pesar, isso foi cinicamente manipulado por aquele setor do establishment político e da burguesia negra especializados em desorientar e desarmar a opinião pública.

O atual candidato presidencial democrata, o ex-vice-presidente Joe Biden, e o político Al Sharpton, foram ambos destacados na cerimônia para enquadrar a violência policial como fundamentalmente uma questão racial, que pode ser resolvida com reformas moderadas. Nenhum dos dois tinha nada a dizer sobre o fato de que o presidente Trump e uma parte significativa do estado se aproveitaram dos protestos para preparar um golpe de estado para derrubar a Constituição.

Sharpton alegou desonestamente que se a vítima em Minneapolis tivesse sido branca e o policial negro, ele teria sido preso e indiciado. Biden declarou que o assassinato de Floyd foi o resultado de “abuso sistêmico”.

Se alguém representa abuso sistêmico, é Biden, cuja carreira política de quase 50 anos é marcada pela criminalidade, indiferença e reação. Ele tem operado como uma figura importante na estrutura de poder do Partido Democrata, tendo sido autor da Lei de Controle de Crimes Violentos de 1994, que aumentou o encarceramento em massa, principalmente de homens negros, e expandiu a pena de morte. Como vice-presidente de Barack Obama por oito anos, Biden fez parte de uma administração que gastou bilhões de dólares em equipamentos militares para a polícia e encobriu um assassinato policial após o outro.

Rejeitando os chamados para “desinvestir” na polícia, Biden propôs fornecer US$ 300 milhões em financiamento federal adicional para “revitalizar” a polícia e ajudar a implementar mudanças limitadas, como mais câmeras corporais, um padrão nacional para o uso da força e a contratação de mais policiais de grupos minoritários. Ele também sugeriu que assistentes sociais fossem incorporados à polícia em chamados de emergência relacionados à saúde mental, ao uso de drogas ou a pessoas sem-teto, obrigando assim os assistentes sociais a operar como um braço da polícia.

O ex-adversário de Biden nas primárias do Partido Democrata, Bernie Sanders, adotou a mesma posição. Em entrevista publicada na New Yorker na terça-feira, Sanders se opôs aos apelos para “abolir” ou “desinvestir” na polícia, pedindo, pelo contrário, um financiamento maior e mais treinamento. Em sua longa entrevista, Sanders evitou qualquer menção à “revolução política” (seu antigo slogan de campanha) ou à “classe bilionária”. Suas posições são agora indistinguíveis das de Biden.

Omitida em todos os artigos da grande imprensa e do establishment político está qualquer referência à realidade que está por trás tanto da brutalidade da polícia como da erupção de enormes protestos populares.

Não há menção ao fato de que mais de 1.000 pessoas são mortas pela polícia a cada ano, uma média de três assassinatos por dia, a maioria dos quais não são negros. Não há menção à situação dos trabalhadores latino-americanos e de outros milhares que estão sendo presos por causa da guerra fascista de Trump contra os imigrantes.

As intermináveis guerras dos Estados Unidos e a relação entre as guerras no exterior e a violência policial militarizada doméstica também foram deixadas de lado. Um fato que foi amplamente compreendido nos anos 60 – que a violência do imperialismo estadunidense no exterior estava ligada à violência do estado no próprio EUA – é ignorado, juntamente com a bem documentada relação entre a polícia, os militares e os preparativos para a repressão em massa.

Embora seja fácil que termos como “supremacia branca” e “racismo sistêmico” saiam da boca desses políticos burgueses, uma palavra é inominável: capitalismo. Não há um exame dos processos sociais e econômicos mais profundos e dos imensos níveis de desigualdade social acumulados ao longo de décadas que criaram as condições para a morte de Floyd e de tantos outros trabalhadores como ele. Ao invés disso, há mais uma vez um chamado para reformas vazias, que tem sido ouvido repetidamente nos últimos 50 anos.

O objetivo dos democratas e seus colaboradores na imprensa, da pseudoesquerda e de intelectuais universitários é encher a opinião pública com banalidades sobre o enfrentamento da “fragilidade branca” e assegurar que a relação da violência policial com o sistema social e econômico mais amplo não seja levantada de forma significativa. O objetivo dos argumentos sofísticos desenvolvidos pelos intelectuais de classe média e agora empregados pelos democratas é absolver o sistema capitalista de qualquer culpa e apresentar a violência policial como resultado de uma sociedade irremediavelmente racista – incorporada em particular no racismo de trabalhadores brancos.

As manifestações das últimas duas semanas, que foram multirraciais e multiétnicas e se espalharam por todo o país, destruíram os argumentos de que os Estados Unidos são uma sociedade fundamentalmente racista.

Em um depoimento ao Congresso dos EUA ontem, Philonise Floyd, irmão de George Floyd, chamou de maneira expressiva a atenção para o movimento unificado e internacional que surgiu após o seu assassinato: “George pediu ajuda e foi ignorado. Por favor, escutem o chamado que estou fazendo para vocês agora, para os chamados de nossa família e os chamados das ruas do mundo todo. Pessoas de todas as origens, gêneros e raças se uniram para exigir mudanças.”

Trabalhadores e jovens devem reconhecer que a narrativa racial empregada pela classe dominante não explica nada sobre os problemas fundamentais enfrentados pela classe trabalhadora nos Estados Unidos e em todo o mundo.

O Partido Socialista pela Igualdade (SEP) busca ligar a luta contra a violência policial e a defesa dos direitos democráticos com um movimento político independente de toda a classe trabalhadora contra a desigualdade social, a pobreza, a guerra e o sistema capitalista. Existe agora um enorme potencial para a construção de um movimento socialista. Mas a radicalização política de massas de trabalhadores e jovens deve ser transformada em uma luta revolucionária consciente pelo socialismo.

Apoie a campanha eleitoral presidencial do SEP visitandosocialism2020.org. Clique aqui para se juntar ao SEP.

Niles Niemuth