O paradoxo da alta em Wall Street

13 Junho 2020

Publicado originalmente em 10 de junho de 2020

Na segunda-feira, ocorreu o que parece ser um paradoxo marcante. Nesse dia, a Agência Nacional de Pesquisas Econômicas declarou que os EUA estavam em recessão - que será a maior contração econômica desde a Grande Depressão - enquanto os índices de Wall Street voltavam aos níveis que haviam atingido no início do ano.

Desde a queda em meados de março, quando os mercados financeiros dos EUA e internacionais congelaram em toda a região, Wall Street tem desfrutado de uma ascensão espetacular. O índice Dow Jones subiu 48% desde 23 de março, enquanto Nasdaq, que é pesadamente automatizado, subiu 45% e está agora mil pontos acima em comparação ao início do ano. O S&P 500, que também subiu 45%, retornou para onde estava antes da pandemia de COVID-19.

Em meio à maior crise de saúde em um século, e enquanto a taxa de infecções e o número de mortes pelo coronavírus continua aumentando nos EUA e internacionalmente, a alta do mercado contrasta fortemente com a economia real subjacente.

Pessoas passam por painel eletrônico mostrando índice de mercado de Hong Kong em frente a um banco local, terça-feira, 3 de março de 2020 (AP Photo/Kin Cheung)

Na semana passada, o Gabinete de Orçamento do congresso dos EUA advertiu que os efeitos atuais da pandemia vão durar no mínimo uma década, ao contrário das afirmações de uma volta "com força total" da economia pelo presidente Trump e outros.

As estimativas do efeito da pandemia sobre as cinco maiores economias européias colocam a contração do Reino Unido em 14%, Espanha em 11,6%, França em 10,3%, Itália em 9,2% e Alemanha em 6,1%. O Banco Mundial previu que o PIB global irá contrair 5,2% neste ano.

Nessas condições, as métricas tradicionais para a determinação do preço das ações, como a razão preço/lucro, foram descartadas, dado que as ações das empresas continuam subindo mesmo enquanto registram perdas, ou sequer podem fornecer uma estimativa de suas receitas por causa da pandemia.

O que explica essa mania especulativa em meio às mortes, a destruição de milhões de empregos e o crescente empobrecimento de seções cada vez mais amplas dos trabalhadores?

A resposta está na reação da classe dominante à pandemia. Desde o início, ela não tratou a COVID-19 como uma crise de saúde, a ser enfrentada com a implementação de medidas de base científica, mas como um golpe contra a acumulação dos lucros, e agiu de maneira correspondente.

A administração Trump, com o apoio de todo o establishment político, organizou um resgate de mais de US$ 3 trilhões das corporações sob a Lei CARES, ao mesmo tempo em que o Fed interveio para injetar trilhões de dólares nos mercados financeiros.

Após já ter elevado suas participações em ativos financeiros de US$ 800 bilhões para mais de US$ 4 trilhões após a crise financeira global de 2008, o Fed aumentou ainda mais as suas participações para US$ 7 trilhões, esperando uma elevação para US$ 9 trilhões. O presidente do Fed, Jerome Powell, deixou claro que não há "nenhum limite" para as ações do Banco Central estadunidense. O Fed funciona agora como o garantidor dos mercados financeiros em todas as esferas.

As ações do Fed estão sendo replicadas em todo o mundo. De acordo com um artigo publicado pelo Banco de Compensações Internacionais, o efeito combinado das medidas dos cinco maiores bancos centrais do mundo significa que seus balanços crescerão até 23% do PIB antes do final de 2020, comparado a um aumento de 10% após a crise de 2008, e permanecerão indefinidamente nesses níveis que não tem precedente histórico.

Pessoas esperam na fila para solicitar auxílio desemprego no “One-Stop Career Center” em Las Vegas. (Crédito: AP Photo/John Locher)

Do ponto de vista das instituições financeiras e especuladores de Wall Street, a pandemia tem sido uma situação vantajosa para todos. Eles têm sido encorajados pela campanha homicida do retorno ao trabalho e por saberem que possuem total apoio de um establishment político que defende abertamente a primazia das rendas e lucros empresariais sobre a vida dos trabalhadores.

Eles também sabem que se houver uma queda significativa no mercado de ações, o Fed intervirá para disponibilizar ainda mais dinheiro.

Além disso, eles reconhecem que enormes ganhos podem ser obtidos com a devastação econômica. Ela fornece as condições para que as grandes corporações possam engolir as empresas que falirem, aumentando assim o tamanho e os lucros daquelas que sobreviverem.

Elas podem utilizar o aumento nas taxas de desemprego para níveis pós-guerra para reduzir os salários e as condições dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que reestruturam suas operações, utilizando as novas tecnologias para empregar menos trabalhadores e com remuneração muito inferior.

Em suma, os oligarcas dirigentes corporativos e financeiros estão descobrindo que podem não apenas conviver com o coronavírus, mas prosperar e lucrar com ele.

Entretanto, há limites objetivos para a festa de especulação. A montanha de capital fictício criada pela injeção de dinheiro com o apertar de um botão de computador não cria, por si própria, valor real. Ativos financeiros, incluindo portifólios de ações superavaliados, representam a reivindicação de um valor futuro, que precisa ser extraído do trabalho da classe trabalhadora.

Isto exige a intensificação da exploração da classe trabalhadora para níveis sem precedentes. As classes dominantes, nos EUA e no mundo, estão se preparando para o enorme confronto de classes que isso implica.

Essa é a força subjacente e que motiva o impulso da administração Trump para o estabelecimento de uma ditadura policial-militar e para o desmonte das normas constitucionais. Utilizando as palavras do Secretário de Defesa de Trump, Mark Esper, o processo de acumulação de lucros é um "campo de batalha" que o estado capitalista deve "dominar" vigorosamente.

A irrupção de protestos contra o assassinato de George Floyd pela polícia é uma prévia dos confrontos de classe ainda maiores que virão. As suas últimas palavras, "Não consigo respirar", têm ressoado em todo os EUA e internacionalmente porque encapsulam a situação que os trabalhadores enfrentam em todos os lugares.

Cada vez mais é impossível "respirar", ou seja, viver sob o sistema capitalista, conforme as classes dominantes procuram preservar seu sistema de lucro por todos os meios necessários, custe o que custar.

A questão urgente que a classe trabalhadora enfrenta é entender conscientemente a lógica objetiva da situação que agora enfrenta e a natureza da luta em que já está colocada contra uma classe dominante assassina e ditatorial.

A Declaração da Independência estadunidense invocou, em primeiro lugar, o direito inalienável à vida. Hoje, a conquista desse direito só pode ser levada adiante através de uma luta consciente pelo poder político - a derrubada do sistema de lucro e o estabelecimento de um estado operário como o primeiro e mais decisivo passo na reconstrução da economia sobre bases socialistas.

Nick Beams