A pandemia de COVID-19 e a guerra imperialista global

Por Bill Van Auken
1 Junho 2020

Publicado originalmente em 9 de maio de 2020

O discurso a seguir foi proferido por Bill Van Auken, editor de América Latina do World Socialist Web Site, no Comício Online do Dia Internacional do Trabalhador de 2020, realizado pelo WSWS e pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional em 2 de maio.

Caros camaradas e amigos:

Este Dia Internacional do Trabalhador de 2020 está acontecendo em meio a uma luta dos trabalhadores de todo o mundo para salvar suas próprias vidas e para defender seus direitos básicos contra a resposta criminosa das classes capitalistas dominantes de todos os países à pandemia do novo coronavírus.

Mesmo enquanto a COVID-19 ameaça tirar a vida de milhões, a ameaça de uma nova guerra mundial que poderia exterminar bilhões de pessoas, ao invés de diminuir pela pandemia, só tem aumentado.

O imperialismo não tirou licença por doença nem férias; ele não dorme. Apesar de toda a conversa vazia sobre todos nós estarmos juntos, a classe dominante dos EUA vê a pandemia como um instrumento de guerra. Ela tem buscado incessantemente utilizar o vírus para atingir os mesmos objetivos geoestratégicos que perseguia antes que o coronavírus começasse a tirar centenas de milhares de vidas e a forçar o fechamento de economias inteiras.

O discurso de Bill Van Auken começa à 1:37:58 do vídeo

Esta semana, o General Timothy Ray, Comandante de Ataque Global da Força Aérea dos EUA, que supervisiona centenas de bombardeiros estratégicos e mísseis balísticos intercontinentais (ICBM), dirigiu-se aos estadunidenses e aos rivais estratégicos do imperialismo dos EUA declarando:

“Tenham certeza de que tomamos as medidas necessárias para garantir que nossos bombardeiros e ICBM estejam prontos para serem lançados e possam alcançar qualquer alvo no planeta a qualquer momento. Estamos totalmente prontos para a missão e a COVID-19 não vai mudar isso.”

No início do mês passado, o General Ray disse em uma entrevista que as bombas nucleares em seu comando “ainda estão prontas para voar”.

O mundo está chocado depois de ver pacientes morrendo aos milhares em salas de emergência superlotadas, de caixões empilhados em valas comuns e corpos em decomposição amontoados em caminhões alugados nas ruas da cidade de Nova York – um retrato do capitalismo dos EUA em profunda decadência.

Se o imperialismo não for detido pela mobilização revolucionária da classe trabalhadora internacional, ele causará um sofrimento infinitamente pior. Uma única ogiva de 40 kilotoneladas lançada sobre Manhattan, porém, deixaria cerca de 250 mil mortos e mais 250 mil feridos, sem UTIs, hospitais ou profissionais médicos para tratá-los.

“As bombas nucleares estão prontas para voar”. Setenta e cinco anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, comandantes militares e líderes políticos partem da premissa de que uma Terceira Guerra Mundial entre grandes potências não é uma possibilidade remota, mas sim altamente provável e até inevitável.

Como o camarada que discursou antes, Peter Symonds, deixou claro, o primeiro e principal alvo do militarismo dos EUA é a China. No entanto, Washington está levando adiante uma agressão em todo o mundo.

No auge da pandemia nos EUA, o presidente Donald Trump enviou uma flotilha de navios de guerra para a costa da Venezuela, enquanto tuitava uma ordem à Marinha dos EUA para atacar e afundar barcos de patrulha iranianos monitorando o provocante deslocamento de navios de guerra dos EUA para o Golfo Pérsico. O governo dos EUA tem procurado utilizar a pandemia como instrumento de guerra, aumentando as sanções contra o Irã, que tem enfrentado uma das maiores taxas de mortalidade do mundo por COVID-19, e a Venezuela, cujo sistema de saúde está à beira do colapso.

Enquanto estas ameaças de guerra repentinas e não provocadas são sinais de histeria e desespero – um desabafo diante da crise do coronavírus – há um método definitivo para esta loucura. Washington pretende aproveitar a doença e a morte de milhões para suas agressivas campanhas de “máxima pressão” para a mudança de regime em ambos esses países ricos em petróleo.

Três décadas de guerras dos EUA no Oriente Médio e no Afeganistão criaram apenas uma série de desastres. Longe de alcançar os objetivos de Washington de recuperar a hegemonia mundial corroída pelo declínio relativo da posição global do capitalismo estadunidense, o imperialismo dos EUA enfrenta hoje o que é chamado, em linguagem militar e de política externa, de “competição estratégica” com a Rússia e a China. Ao mesmo tempo, conflitos cada vez mais agudos estão surgindo entre Washington e seus parceiros da OTAN, em particular a Alemanha, contra a qual os EUA lutaram em duas guerras mundiais.

Os preparativos para tais conflitos estão consumindo um orçamento militar gigantesco que se estima que aumente para US$ 741 bilhões no próximo ano, com US$ 50 bilhões destinados ao desenvolvimento da tríade nuclear dos EUA, e US$ 500 bilhões para os próximos dez anos.

Enquanto isso, o Centro de Controle de Doenças, a principal agência dos EUA para enfrentar pandemias, viu seu orçamento ser implacavelmente cortado, que agora mal chega a 1,5% do Pentágono.

Nada poderia resumir mais claramente o caráter criminoso e irracional do sistema capitalista. Como os trilhões que se destinam à Wall Street, os trilhões gastos na fabricação de armas de destruição em massa, ao mesmo tempo em que geram lucros obscenos para os CEOs e os grandes acionistas, representam recursos roubados da sociedade, pois milhões sofrem com o coronavírus, o desemprego em massa e a fome.

O militarismo dos EUA, no entanto, está longe de ser todo-poderoso. Isso ficou claro no que aconteceu a bordo do USS Theodore Roosevelt, um porta-aviões de propulsão nuclear supostamente um símbolo do poder estadunidense. O coronavírus se espalhou pela tripulação de maneira descontrolada, com pelo menos 900 marinheiros agora infectados pela doença. O comandante do navio suplicou aos seus superiores que ancorassem o porta-aviões, desembarcassem a tripulação e colocassem todos em quarentena, insistindo: “Nós não estamos em guerra. Os marinheiros não precisam morrer.”

Esta ação enfureceu a administração Trump, que estava tentando minimizar a ameaça da pandemia e acredita que o imperialismo dos EUA está em guerra e que se os marinheiros têm que morrer, que assim seja. Por sua vez, a tripulação deu ao seu capitão demitido uma enorme despedida que beirava um motim. Sua ação atravessou uma política de agressão militar na qual suas vidas não importam tanto quanto, no limite, as dos iranianos, venezuelanos, iemenitas, afegãos, iraquianos ou somalis que o imperialismo dos EUA mata diariamente.

Ainda mais significativas são as greves dos trabalhadores mexicanos de maquiladoras que cortaram o importante abastecimento para a indústria de armas dos EUA, enquanto os trabalhadores do outro lado da fronteira nos EUA também entraram em greve e protestaram nas fábricas de armas contra condições que ameaçam sua saúde e suas próprias vidas.

A mesma crise insolúvel que está levando o capitalismo mundial à guerra está levando a classe trabalhadora mundial à revolução.

A única resposta ao impulso criminoso para a guerra está na mobilização da classe trabalhadora internacional contra o capitalismo. Os trabalhadores devem lutar pela expropriação da vasta indústria de armas sem indenização e pelo confisco dos lucros obscenos de seus principais acionistas, para que esses recursos possam ser mobilizados para combater a pandemia e assegurar as necessidades sociais da grande maioria da população. Essas exigências indispensáveis estão ligadas à luta pela transferência do poder para a classe trabalhadora e ao estabelecimento do socialismo em escala internacional.

O Comitê Internacional da Quarta Internacional, o Partido Mundial da Revolução Socialista, deve ser construído em todos os países para liderar esta luta. Pedimos a todos os que estão participando deste Comício Online do Dia Internacional do Trabalhador que se juntem a nós na construção deste partido.