Bolsonaro é recebido como convidado de honra no Dia da República da Índia

Por Tomas Castanheira
5 Fevereiro 2020

Publicado originalmente em 30 de janeiro de 2020

O presidente fascista do Brasil, Jair Bolsonaro, foi recebido como convidado de honra do primeiro ministro Narendra Modi na celebração do Dia da República da Índia de 26 de janeiro, proporcionando outra clara demonstração ao mundo do caráter de extrema direita de seu governo do partido Bharatiya Janata (BJP).

Bolsonaro chegou à Índia na sexta-feira acompanhado de uma comitiva de ministros e empresários, entre eles CEOs de 10 empresas brasileiras de armamentos. Os governos do Brasil e da Índia promoveram a visita de Bolsonaro como uma oportunidade de expandir amplamente laços econômicos e geoestratégicos e de construir uma parceria estratégica bilateral. Na véspera das comemorações, Modi e Bolsonaro assinaram 15 acordos bilaterais de comércio, defesa e outras áreas.

Em um comunicado conjunto, os governos afirmaram a mútua intenção de dobrar o comércio entre os países em três anos, fazendo o volume de trocas saltar de US$ 7 bilhões para US$ 15 bilhões anuais. Uma das áreas de cooperação é o setor energético, com parcerias na produção de etanol e um aumento na importação indiana de petróleo brasileiro. De acordo com analistas econômicos, isso levaria a Índia a cumprir a exigência de Washington de substituir parte do petróleo hoje importado da Venezuela.

Na área de defesa, o governo brasileiro quer se consolidar como um exportador de armas à Índia, o segundo maior comprador mundial. Hoje praticamente inexistente, o Brasil tem a meta de atingir, em cinco anos, uma venda anual de US$ 1 bilhão em armas ao mercado indiano.

A viagem assistiu Nova Déli e Brasília estabelecerem uma Comissão Conjunta de Trabalho sobre Cooperação Industrial da Área de Defesa, providenciando um fórum

para negociações entre executivos da fabricante de armas brasileira Taurus e da siderúrgica indiana Jindal. As empresas anunciaram na segunda-feira uma joint venture para a construção de uma fábrica de armas no território indiano. A proposta se enquadra na política “Make in India” de Modi, que quer estimular a substituição de produtos importados pela fabricação no próprio país e colocar a Índia no centro da cadeia produtiva global alternativa para a China.

Espera-se que o governo da Índia adquira 500 milhões de fuzis da Taurus nos próximos cinco anos. Como resultado do anúncio, as ações da Taurus dispararam na Bolsa Brasileira.

Vários outros acordos estão em andamento, incluindo uma possível venda para a Força Aérea Indiana de um avião de transporte militar avançado desenvolvido pela gigante aeroespacial brasileira Embraer.

Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente, fez parte da delegação à Índia e atuou promovendo o Brasil como um centro global de produção de armas. Para isso, ele está pressionando a eliminação da burocracia que impede indústrias bélicas estrangeiras de se instalarem no Brasil, calculando que poderão ser atraídas ao país pela mão de obra cada vez mais explorada dos brasileiros.

Apesar do barulho causado pelos vários acordos assinados por Modi e Bolsonaro, os dois governos se mostraram incapazes de resolver uma prolongada disputa comercial sobre as exportações de açúcar da Índia, que o Brasil, juntamente com a Austrália e a Guatemala, acusaram de estar inundando o mercado mundial graças a um regime de subsídio do governo. A Organização Mundial do Comércio iniciou uma investigação formal sobre as queixas no ano passado. A visita de Bolsonaro à Índia provocou protestos de produtores de açúcar indianos, que acusaram que qualquer acordo com o Brasil seria prejudicial a eles.

Índia e Brasil são hoje as duas maiores economias “emergentes” do mundo depois da China, e Washington está buscando cultivar relações com os governos de direita de ambos os países em uma tentativa de se contrapor à crescente influência de Pequim.

Sob Modi, a Índia abriu suas bases e portos para uso rotineiro de aviões e navios de guerra dos EUA, imitou a linha provocativa de Washington no Mar do Sul da China e formou uma aliança militar-estratégica incipiente ao estilo da OTAN com os EUA e seus principais aliados da Ásia-Pacífico, Japão e Austrália. Essa aliança é conhecida como “Quad”.

O próprio Bolsonaro tem feito uma campanha baseada em uma plataforma anti-chinesa e tem expressado o objetivo de diminuir a dependência da economia brasileira em relação à China. A realidade, no entanto, é que o comércio bilateral Brasil-Índia equivaleria a nem um décimo daquele entre o Brasil e a China mesmo que as metas anunciadas entre os dois líderes no final de semana fossem alcançadas.

A reunião entre Modi e Bolsonaro ressaltou o apoio comum deles às políticas mais reacionárias no terreno global. Dedicaram um longo trecho da declaração conjunta ao que chamaram de “combate ao terrorismo internacional”. Anunciaram o compromisso de construir uma “parceria internacional mais intensa para conter o terrorismo e o extremismo violento, inclusive mediante maior compartilhamento de informações de inteligência”, e uma cooperação “contra ameaças terroristas específicas identificadas por cada país”.

Isso sinaliza, por um lado, o alinhamento deles à política externa do imperialismo dos EUA, que justifica suas guerras de agressão e crimes de guerra, como o assassinato do general iraniano Qasem Suleimani, em nome do combate ao terrorismo. Por outro, ambos os governos reivindicam o direito de reprimir violentamente qualquer forma de manifestação social que pode ser livremente “identificada por cada país” como “ameaça terrorista”.

Isso não é mera especulação. Enquanto Bolsonaro chama protestos sociais de atos terroristas e o Congresso brasileiro avança leis para enquadrar manifestantes na lei antiterrorismo, o governo indiano tem imposto um cerco à Caxemira e seus 13 milhões de habitantes sob o pretexto de combater o terrorismo, além de ter acusado falsamente nove ativistas de terrorismo sob a lei de prevenção de atividades ilegais.

Na atual campanha para a eleição da assembleia no Território da Capital Nacional de Déli, local do desfile do Dia da República de 26 de janeiro, políticos proeminentes do BJP lideraram repetidamente gritos de “Atire nos traidores”, uma referência àqueles que protestavam contra a lei de cidadania anti-mulçumana do governo Modi recentemente aprovada.

Durante o encontro, Modi não poupou elogios a Bolsonaro, a quem chamou de “querido amigo”. O governo decorou as ruas de Nova Déli com cartazes de boas vindas com a foto do presidente brasileiro. Modi insistiu que os dois países estão realizando “'uma parceria estratégica que tem bases em ideologia parecida e valores parecidos”. Essa “ideologia” e esses “valores” consistem em nacionalismo de extrema direita e políticas fascistas levadas adiante por ambos os presidentes.

Modi – membro desde a infância da organização fascista hindu Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) – certamente se identifica com a ávida defesa de Bolsonaro da sangrenta ditadura militar que governou o Brasil por mais de 20 anos. Ressaltando a afinidade política deles, Bolsonaro, quando questionado se conhecia a fama de Modi como uma ameaça à democracia indiana, respondeu cinicamente: “Dizem que eu também sou ameaça à democracia”.

Bolsonaro foi forçado a cancelar uma visita aos EUA no ano passado diante da ameaça de protestos, além de ser considerado tóxico em grande parte da Europa. Mas a Índia foi um país onde ele pode contar com o governo e a mídia corporativa que não levantaram questões sobre o ataque de seu governo à liberdade de imprensa e outros direitos democráticos fundamentais.

As semelhanças políticas entre líderes governamentais de países com formações históricas tão diferentes são um reflexo das preocupações comuns das classes dominantes indiana e brasileira, ambas mergulhadas em riqueza sem precedentes em meio à pobreza em massa e à disfunção social, temendo acima de tudo a oposição social da classe trabalhadora. Em ambos os países, os trabalhadores estão submetidos aos mesmos problemas fundamentais: desemprego em massa, condições de vida e de trabalho cada vez piores, cortes governamentais e as traições realizadas pelos sindicatos e falsos partidos dos trabalhadores (na Índia, comunistas stalinistas) que se apresentam como “de esquerda” enquanto impõem os ditames das grandes empresas e bancos.

As condições comuns de exploração dos trabalhadores estão profundamente enraizadas no processo de globalização da produção capitalista. Ao mesmo tempo, elas trazem imensas possibilidades revolucionárias de unificação das reivindicações políticas e de coordenação global da luta dos trabalhadores ao redor do mundo.