Novas burocracias sindicais ou poder operário independente?

As lições da rebelião dos trabalhadores de Matamoros – Parte 5

Por Andrea Lobo
31 Dezembro 2019

Parte 1 | Parte 2 | Parte 3 | Parte 4 | Parte 5

Publicado originalmente em 17 de abril de 2019

Esta é a quinta e última parte de uma série de artigos sobre a onda de greves de trabalhadores de maquiladoras na cidade fronteiriça mexicana de Matamoros.

A rebelião dos trabalhadores de Matamoros nos primeiros meses de 2019 foi uma experiência estratégica da qual lições cruciais devem ser tiradas não apenas pelos trabalhadores do México, mas por toda a classe trabalhadora internacional.

Ao longo de sua corajosa luta, os trabalhadores de maquiladoras criaram comitês de greve em oposição aos sindicatos controlados pelas corporações, convocaram assembleias populares para decidir ações coletivas por toda cidade e realizaram passeatas até a fronteira com os EUA, enviando declarações aos trabalhadores estadunidenses para que se juntassem à sua luta contra as corporações transnacionais.

Diante das medidas repressivas dos capangas dos sindicatos charros, dos patrões e das polícias estadual e federal e dos militares, os trabalhadores de Matamoros fizeram apelos a setores mais amplos da classe trabalhadora mexicana e também internacionalmente, formando patrulhas de trabalhadores para defender os grevistas. Na empresa Ballinger, onde alguns trabalhadores foram demitidos por exigir o 20/32, os trabalhadores exigiram espontaneamente o controle administrativo sobre as contratações e demissões da empresa.

Isso inspirou o apoio de estudantes, professores, outros trabalhadores do setor de serviços e camadas da classe média baixa, como donos de pequenos negócios, que se juntaram às manifestações dos grevistas e doaram comida e dinheiro. Em meio às lutas iniciais de professores e funcionários hospitalares contra os ataques do presidente Andrés Manuel López Obrador à saúde e à educação pública, a rebelião de Matamoros inspirou uma onda de greves entre professores universitários, metalúrgicos e outros setores da classe trabalhadora.

O surgimento de novas organizações de luta da classe trabalhadora confirmou o prognóstico do Comitê Internacional da Quarta Internacional, o movimento trotskista mundial, feito no início dos anos 1990, segundo o qual o ressurgimento da luta de classes tomaria cada vez mais a forma de um conflito direto com os velhos sindicatos burocratizados e corporativistas e despontaria como uma luta coordenada internacionalmente.

Trabalhadores da Tyco protestam fora da fábrica

Os trabalhadores de Matamoros se rebelaram contra os sindicatos charros comandadospor gângsteres. Entretanto, os sindicatos “independentes” promovidos pela falsa amiga dos trabalhadores, a advogada trabalhista Susana Prieto, estão alinhados com sindicatos estadunidenses e alemães, como o United Auto Workers, o United Steelworkers e o IG Metall, que funcionam como forças policiais da indústria a serviço de grandes corporações como a General Motors e Volkswagen. Esses sindicatos corporativistas, que têm há décadas suprimido a resistência dos trabalhadores contra cortes salariais, fechamentos de fábricas e demissões, não oferecem qualquer alternativa.

Após as greves de Matamoros, a associação de proprietários de maquiladoras e as corporações dos EUA e de outros países estão realizando uma campanha punitiva de demissões e elaborando uma lista negra com os líderes de greve mais combativos, enquanto o governo AMLO ameaça usar a repressão do estado para impedir os trabalhadores de garantirem seus direitos a um salário digno e condições de trabalho decentes.

Então, qual é o caminho a seguir?

Está claro que os trabalhadores das maquiladoras não teriam conseguido nada se não tivessem se organizado independentemente dos sindicatos. Esse movimento independente deve ser ampliado e consolidado através da formação de comitês de base, controlados democraticamente pelos próprios trabalhadores, em todas as fábricas e locais de trabalho.

Esses comitês não serão novos sindicatos. Como David North, o presidente do Conselho Editorial Internacional do World Socialist Web Site, explicou em 1998: “Tendo como base as relações de produção capitalistas, os sindicatos são, por sua própria natureza, forçados a adotar uma atitude hostil em relação à luta de classes. Dirigindo seus esforços para assegurar acordos com empregadores que fixam o preço da força de trabalho e determinam as condições gerais sob as quais a mais-valia será extraída dos trabalhadores, os sindicatos são obrigados a garantir que seus membros forneçam sua força de trabalho de acordo com os termos negociados em contrato. Como Gramsci observou, ‘o sindicato representa a legalidade e deve se esforçar para que seus membros respeitem essa legalidade’.”

Em um período histórico anterior, particularmente durante o boom econômico pós-Segunda Guerra Mundial, os trabalhadores foram capazes de conquistar certas melhorias através dos sindicatos, apesar de essas organizações defenderem as relações de propriedade capitalistas e de seu programa nacionalista. Contudo, mesmo nesse período, quaisquer ganhos obtidos foram resultado de lutas massivas vindas da base, às quais as burocracias sindicais se sentiram obrigadas a responder.

Nas últimas quatro décadas, os sindicatos, que antes eram organizações que pressionavam os patrões por concessões aos trabalhadores, transformaram-se em organizações que pressionam os trabalhadores por concessões – cortes nos pagamentos, aceleração da produção, demissões e outros retrocessos – aos patrões. Essa transformação esteve ligada a mudanças socioeconômicas objetivas, sobretudo a globalização da produção capitalista e o surgimento de corporações transnacionais que produzem para o mercado mundial e percorrem o mundo em busca das fontes mais baratas de mão de obra.

Os sindicatos, que se baseiam em uma estrutura nacional, sejam eles nominalmente “socialistas” ou abertamente pró-capitalistas, são incapazes de responder à globalização de uma maneira progressista. Ao invés disso, eles rejeitam qualquer resistência às corporações e colaboram voluntariamente com seus “próprios” patrões e governos para reduzir os custos trabalhistas para aumentar a competitividade e lucratividade da indústria do país contra seus rivais internacionais.

A subordinação dos interesses da classe trabalhadora à configuração econômica, jurídica e política capitalista de hoje significa deixar de garantir qualquer dos direitos sociais da classe trabalhadora. Esses direitos, incluindo o direito a um emprego seguro e bem remunerado, colidem com os “direitos” dos proprietários capitalistas de fechar suas fábricas, despedir trabalhadores, demitir militantes e transferir a produção para qualquer lugar do mundo com mão de obra mais barata.

Os comitês de base

Quando dois direitos colidem, disse Karl Marx, então a “força decide”.

Os comitês de base não irão se curvar diante dos “direitos da administração” e àquilo que os proprietários das corporações e seus políticos subordinados dizem ser possível pagar. Os comitês devem estar alertas, contrapondo os interesses dos trabalhadores aos ditames da administração empresarial. É necessário que utilizem os métodos da luta de classes – manifestações massivas, greves de massas e paralisações de solidariedade, ocupações de fábricas, etc. – que trazem à tona a enorme força da classe trabalhadora, sem cujo trabalho coletivo toda a sociedade pararia.

Os comitês de base devem exigir a recontratação de todos os trabalhadores demitidos e punidos. Em oposição à ditadura do chão de fábrica dos patrões das corporações, imposta pelo governo e suas leis capitalistas com a ajuda dos sindicatos, os trabalhadores devem lutar pela democracia industrial e pelo controle operário da produção, incluindo a velocidade e a segurança das linhas de montagem.

Os trabalhadores de maquiladoras em greve frequentemente levaram aos repórteres do WSWS e às redes sociais demandas relacionadas à falta de acesso ao sistema de saúde, dívidas crescentes com o Instituto do Fundo Nacional de Habitação para Trabalhadores (INFONAVIT), acesso limitado a creches e outras questões sociais mais amplas em torno das quais dezenas de milhões de trabalhadores e oprimidos, que estão se livrando das ilusões em AMLO e despertando para a necessidade de se opor ao seu governo capitalista, podem ser mobilizados.

Os comitês de base devem unir os trabalhadores das fábricas e outros locais de trabalho a trabalhadores e jovens nos bairros para lutar pelo direito à educação pública de qualidade e outros serviços vitais e contra a repressão policial e militar.

Polícia fortemente armada enviada para quebrar piquete na Mecalux em 31 de março

Para se unirem contra as corporações transnacionais que superexploram os trabalhadores das maquiladoras, os operários devem lutar para se unir a todos os setores de trabalhadores do México e estabelecer linhas de comunicação com os operários da indústria automotiva e com os demais trabalhadores dos EUA e Canadá para preparar uma luta coordenada que os impeçam de competirem entre si e que garanta empregos seguros e bem remunerados a todos eles.

A interrupção da produção nas fábricas montadoras de automóveis em toda a América do Norte como resultado das greves em Matamoros demonstrou de forma palpável o caráter internacional da classe trabalhadora e o fato dos trabalhadores de todo o mundo enfrentarem uma luta comum. Através do WSWS, dezenas de milhares de trabalhadores ao redor mundo puderam acompanhar de perto a luta de seus irmãos e irmãs de classe em Matamoros, sendo que essas linhas de comunicação e colaboração devem ser fortalecidas.

Reforma ou revolução

A classe trabalhadora não pode assegurar seus direitos sociais sem fundir a crescente resistência dos trabalhadores com a perspectiva revolucionária internacional pela qual somente o Comitê Internacional da Quarta Internacional, o movimento trotskista mundial, luta. O CIQI está confiante de que, à medida que a luta de classes se intensificar, os trabalhadores mais avançados vão se voltar à análise científica e à estratégia revolucionária marxistas e vão estudar as lições da história para prepararem suas batalhas.

O conflito irreconciliável entre as necessidades sociais da classe trabalhadora e a busca por riqueza pessoal da minoria super-rica impõe à classe trabalhadora a necessidade de abolir o sistema capitalista e tomar o poder político em suas próprias mãos. É só a partir desse caminho que os trabalhadores poderão reorganizar a vida econômica com base na propriedade coletiva e em um plano desenvolvido de forma democrática e científica para que a economia mundial atenda às necessidades humanas e não ao lucro privado.

No México, a luta por essa perspectiva significa um combate irreconciliável contra o governo de AMLO e todos os defensores pequeno-burgueses e pseudo-esquerdistas deste regime capitalista. Depois de roubar as eleições à presidência de AMLO, em 2006 e 2012, as classes dominantes mexicana e estadunidense permitiram que ele fosse eleito no ano passado para dissipar a resistência crescente da classe trabalhadora e canalizá-la em direção ao beco sem saída de seu programa pró-capitalista e nacionalista.

No ano passado, AMLO, que passou 18 anos no direitista Partido Revolucionário Institucional (PRI), recebeu sinal verde para assumir a presidência após apelar pessoalmente a líderes empresariais como Larry Fink, cuja empresa financeira, BlackRock, é a principal proprietária de ações mexicanas e controla um total de US$ 6 trilhões em ativos, mais do que o PIB da América Latina.

Alguns meses após sua posse, a administração AMLO já enfrenta oposição massiva da classe trabalhadora. Enquanto o presidente trabalha para prender a oposição na armadilha dos “sindicatos independentes” sustentados pelos Estados Unidos e Europa, o Congresso de maioria do Morena está acelerando a aprovação de novos métodos de repressão do estado em resposta à greve de Matamoros. A aprovação quase unânime, em 28 de fevereiro, de uma lei que cria a Guarda Nacional e consagra na constituição a utilização dos militares em território nacional mostra que todas as frações da classe dominante contam com as forças armadas para afogar a crescente oposição social em sangue.

A ameaça de demissões em massa realizada pelas maquiladoras estrangeiras e por seus fantoches mexicanos deve ser respondida com a nacionalização das fábricas sob o controle dos trabalhadores, como parte de uma reorganização socialista da economia. Isso inclui a expropriação das fortunas privadas dos super-ricos, incluindo o bilionário mexicano Carlos Slim Helú, e a utilização da riqueza que é criada pela força de trabalho coletiva dos trabalhadores para satisfazer as necessidades humanas.

O conflito inevitável entre a maioria da população mundial e uma pequena minoria de aristocratas empresariais e financeiros está impulsionando o crescimento do conflito de classes ao redor do mundo. A revolta de Matamoros ocorreu em meio a um número recorde de greves de professores nos EUA, muitas delas iniciadas por educadores de base através das redes sociais independentemente dos sindicatos, meses de protestos dos “Coletes Amarelos” na França e levantes na Argélia, Marrocos, Sudão e outros países. Ao mesmo tempo, 30 anos após a restauração do capitalismo na China e Europa do Leste, que supostamente inauguraria uma nova era de prosperidade e democracia, uma onda de greves se espalhou pela Polônia, Hungria, Romênia, República Tcheca e China.

Trabalhadores e apoiadores na manifestação de 9 de fevereiro em Detroit contra fechamento de fábricas da GM

Sob a liderança política do Comitê Internacional da Quarta Internacional, que publica o WSWS, o Comitê Diretor da Coalizão de Comitês de Base foi criado nos EUA, em 9 de dezembro de 2018, para unir as lutas de operários da indústria automotiva e outros trabalhadores contra o fechamento de fábricas da General Motors e os ataques aos salários e condições de vida de todos os trabalhadores.

Um tema central na luta do Comitê Diretor na próxima batalha contratual de 150.000 trabalhadores da GM, Ford e Fiat Chrysler é a rejeição do chauvinismo anti-mexicano do sindicato United Auto Workers e a luta pela união dos trabalhadores estadunidenses, mexicanos e canadenses.

A rebelião de Matamoros confirma a perspectiva marxista do movimento trotskista mundial apresentada em sua declaração de 3 de janeiro, “A estratégia da luta de classes internacional e a luta política contra a reação capitalista em 2019”:

Como o CIQI antecipou, a luta pela igualdade social e o socialismo mundial tomará a forma inicial de uma rebelião global contra esses aparatos pró-capitalistas desacreditados. ... o que se pode prever com certeza é que a retomada das lutas militantes da classe trabalhadora continuará em 2019. Mas a transformação dessa militância social intensificada em um movimento consciente da classe trabalhadora internacional pelo socialismo depende da construção de partidos marxistas-trotskistas da classe trabalhadora – isto é, seções nacionais do Comitê Internacional da Quarta Internacional.

Essa é a lição fundamental que deve ser tirada da revolta de Matamoros.

Concluído.