Trabalhadores brasileiros da GM falam sobre a greve nos EUA

Por Repórteres do WSWS
21 Setembro 2019

Publicado originalmente em 17 de setembro de 2019

Na véspera da greve de 46 mil trabalhadores da GM nos Estados Unidos, uma equipe de reportagem do WSWS conversou com os trabalhadores da fábrica da GM mais antiga do Brasil, em São Caetano do Sul, que está em operação desde 1930.

Os trabalhadores da fábrica de São Caetano do Sul disseram ao WSWS que o sindicato está em completo silêncio sobre a luta dos trabalhadores da GM nos EUA. Todos eles concordaram que no Brasil – assim como na América do Norte – o sindicato se transformou, na prática, em um braço da GM, fazendo valer os interesses da empresa e ajudando a retirar direitos dos trabalhadores com ameaças de demissões e de fechamento de fábricas.

Os trabalhadores criticaram o sindicato por fazê-los competir com seus irmãos de classe em outras fábricas no Brasil e no mundo, mesmo quando estão no mesmo estado e separados por apenas 100 km de distância.

Os repórteres do WSWS também distribuíram a tradução em português da perspectiva “A luta dos trabalhadores contra a GM, Ford e Chrysler requer uma estratégia global”.

Trabalhadores da GM em São Caetano do Sul

As conversas aconteceram em um momento em que os trabalhadores brasileiros também estão se mostrando cada vez mais determinados a se juntar ao levante global da luta de classes, que já foi indicado pela greve dos trabalhadores mexicanos em Matamoros no início do ano.

A militância cada vez maior dos trabalhadores não deixou de ser percebida pelo estado brasileiro. A Folha de S. Paulo noticiou que o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), o general Augusto Heleno, tem realizado encontros frenéticos com juízes do Tribunal Superior do Trabalho (TST), que o alertaram que as medidas de austeridade impostas pelo governo, incluindo o congelamento dos salários dos funcionários públicos, poderiam provocar ampla revolta social.

O governo brasileiro estaria particularmente preocupado porque a greve dos 115 mil trabalhadores da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT), que foi iniciada na última quarta-feira, poderia rapidamente se espalhar para os 70 mil trabalhadores da Petrobrás se o governo insistir em congelar os salários em meio a uma crise econômica de anos e uma inflação de 4% no ano passado. Os trabalhadores dos Correios entraram em greve depois que a empresa propôs um aumento de 0,8%. Eles também se opõem aos planos de privatização da empresa, que resultarão na destruição dos empregos e das condições de vida.

Os sindicatos brasileiros, que são dominados pelo Partido dos Trabalhadores (PT), responderam ao ataque contra as condições de vida do governo de extrema direita do presidente Jair Bolsonaro tentando suprimir qualquer oposição dos trabalhadores. O papel traidor deles acontece enquanto o Brasil enfrenta a pior crise econômica de sua história, que levou a uma queda de 8% do PIB entre 2015 e 2016 e uma produção industrial 15% menor do seu auge histórico em 2011.

O Valor Econômico noticiou na segunda-feira que o número de greves no país diminui 41% este ano comparado ao mesmo período de 2018, mesmo diante da iminente aprovação da odiada “reforma da previdência” do governo, que poderá roubar R$ 1,16 trilhão dos trabalhadores em 10 anos e poderá elevar a idade de aposentadoria para 65 anos – 10 anos acima da expectativa de vida de trabalhadores das favelas de São Paulo, a cidade mais rica da América do Sul, com 10% do PIB brasileiro.

Três anos depois do “fim” oficial da crise, a raiva dos trabalhadores está aumentando diante de uma taxa de desemprego de 12%, atingindo 13 milhões de pessoas. Na maior concentração industrial na América do Sul, a região metropolitana de São Paulo, onde não apenas a GM, mas também a Toyota, Mercedes-Benz, Scania, Saab e Volkswagen possuem fábricas localizadas a apenas algumas centenas de metros umas das outras, a taxa de desemprego é de 17%.

A contínua crise econômica também está revelando as mentiras de décadas contadas pelos sindicatos de que consecutivas concessões, incluindo cortes de salários, demissões, a introdução do trabalho terceirizado e a proibição de greves, salvariam os empregos tornando as fábricas mais “competitivas”.

Enquanto a fábrica da GM no ABC perdeu 25% de sua força de trabalho, empregando hoje apenas 9.300 trabalhadores, a Ford decidiu fechar completamente suas operações na região, demitindo os 4.500 trabalhadores e ameaçando a destruição de 27 mil empregos nas indústrias de autopeças da região. O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, como esperado, tentou convencer o governo estadual e as prefeituras do ABC a reduzirem os impostos para que outra empresa comprasse a fábrica da Ford. Em setembro, o sindicato saudou como uma “vitória” a intenção do grupo Caoa de comprar a fábrica, mantendo apenas 800 trabalhadores com um corte de 30% nos salários.

Na GM, os sindicatos de São Caetano e São José dos Campos, onde a empresa também possui uma fábrica, convenceram o governo do estado a reduzir em 25% o ICMS em troca de um investimento de R$ 10 bilhões nas fábricas. Além disso, na fábrica de São José, o sindicato concordou em congelar os salários este ano e reduzir o piso salarial em 21% dos novos contratados. Ambas as fábricas estavam ameaçadas de serem fechadas, particularmente a de São José, que não recebia investimentos desde 2015.

Em São Caetano, além da redução do ICMS, a Câmara Municipal aprovou a isenção do IPTU, redução no ISS e desconto nas tarifas de água e luz. Tudo isso aconteceu depois de um acordo de 2017 fechado pelo sindicato que também reduziu o salário de novos contratados e que supostamente garantiria a “permanência [da GM] na cidade nos próximos 15 anos”, segundo declaração do sindicato na época.

Mais uma vez, essas concessões são consideradas “insuficientes”. Novas ameaças contra as fábricas podem vir a acontecer logo, uma vez que a empresa cortou 125 engenheiros do centro de desenvolvimento de São Caetano em 9 de setembro. No mesmo dia, outros 60 engenheiros foram demitidos da unidade do campo de provas da empresa, em Indaiatuba. O presidente do sindicato, conhecido pelo apelido de Cidão, respondeu de maneira tipicamente covarde às demissões, dizendo: “O centro de desenvolvimento vai diminuir, não temos dúvida disso. A GM está levando projetos para outras unidades. Tanto é que, há cerca de um ano, em torno de 300 engenheiros foram transferidos para os EUA.”

Duas coisas estão sendo utilizadas para justificar mais uma vez por que os governos locais e, principalmente, os trabalhadores devem “fazer mais” para agradar a GM. A primeira delas é a aguda aceleração da crise econômica na Argentina, para onde vão 60% das exportações de carros do Brasil, que foram reduzidas em 35% até agora. A Volkswagen do Brasil já suspendeu completamente suas vendas para a Argentina até 2020. A segunda é a implementação de um acordo de livre comércio com o México, ao qual os sindicatos responderam de maneira reacionária através do nacionalismo típico deles, exigindo medidas protecionistas do governo do presidente fascista Bolsonaro.

Mesmo assim, os trabalhadores estão cada vez mais conscientes do beco sem saída que essas políticas representam, assim como do papel dos sindicatos em promovê-las.

Aparecido, um trabalhador na planta da GM de São Caetano do Sul, disse ao WSWS que existem enormes expectativas em relação às próximas negociações de contrato em 2020 depois de três anos sem qualquer aumento dos salários. Ele criticou o sindicato por não acatar as decisões votadas pelos trabalhadores, como em um acordo recente prometendo 400 novos contratados, que, na realidade, resultou na substituição de trabalhadores com mais tempo de serviço na GM. “Nós votamos por algo, mas nunca podemos ver a ata das nossas assembleias”, ele disse. “Isso é absurdo, mesmo reuniões de condomínio precisam ter uma ata; como é possível nunca podermos discutir as nossas?”.

Marcos, um trabalhador da ferramentaria, disse ao WSWS: “Se os trabalhadores não sabem exatamente o que está acontecendo nos EUA, é culpa do sindicato. A verdade é que o sindicato não ajudou muito nesses últimos anos”. Apontando para as implicações explosivas da greve nos Estados Unidos, ele disse: “Para te dizer a verdade, existe um medo de entrar em greve, com toda essa conversa do sindicato de fechamento [de fábricas]”. Ainda segundo ele, “agora eles querem fazer a gente defender os interesses da empresa, ao invés do contrário”. Ele encorajou a equipe do WSWS, dizendo: “Eu vejo o que vocês estão fazendo. Vocês não estão aqui apenas para ver como as coisas estão. Enquanto o sindicato nos mantém no escuro, vocês estão transmitindo essas informações para nós. Isso é muito importante.”

José, que trabalha suprindo a linha de montagem, discutiu a necessidade de romper com o nacionalismo e seus principais propagandistas dentro da classe trabalhadora, os sindicatos. “Nós somos pressionados o tempo inteiro contra os trabalhadores dos outros países para aumentar os lucros das empresas. Nos dizem que isso é para o nosso benefício, mas é para o deles. E é assim que o capitalismo funciona”, José disse. “Não há alternativa. Se não [nos coordenarmos através das fronteiras], vamos todos acabar na pobreza. Os últimos acordos estão tendo um custo enorme; nós perdemos muito a cada contrato”, ele completou. José também mostrou ceticismo sobre as promessas de investimento na planta. “O que nós vemos é que concordamos com os salários mais baixos para os novos contratados, mas o que acontece é que os trabalhadores mais velhos estão sendo demitidos e substituídos pelos novos com esses salários mais baixos”.

A equipe do WSWS também falou com José sobre a eleição de Bolsonaro, que as tendências da pseudo-esquerda no Brasil, e mesmo os sindicatos, atribuíram ao suposto atraso da classe trabalhadora. Em particular, eles culparam os trabalhadores militantes da região do ABC – uma antiga fortaleza do PT –, que, depois de quatro décadas, romperam com o partido nas eleições de 2016. O PT foi derrotado em todos os municípios da região. “A verdade é que o que nós vimos no voto para o Bolsonaro foi uma expressão enorme de insatisfação com o que estava acontecendo”, José disse. “Eu não fui votar no segundo turno, mas nós temos visto no chão de fábrica como a raiva está rapidamente se acumulando contra o governo, e percebo que o desapontamento é enorme”.

Xavier, um trabalhador terceirizado do setor de reciclagem de plásticos, também falou sobre os ataques contra os trabalhadores que repudiaram o PT. Segundo ele, “O que aconteceu foi um grande protesto. Eu votei no PT minha vida inteira até a reeleição da Dilma”. Respondendo sobre o ataque da esquerda pequeno-burguesa aos trabalhadores, que alega não haver razão para romper com o PT, exceto o preconceito, ele reagiu fortemente: “Isso não é verdade, as pessoas querem lutar pelos seus direitos”.