Greve geral sinaliza entrada da classe trabalhadora nos protestos de Hong Kong

10 Agosto 2019

Publicado originalmente em 7 de Agosto de 2019

A greve geral de trabalhadores de Hong Kong na segunda-feira sinaliza uma nova etapa no movimento de protestos em massa, que se iniciaram após o governo propor emendas à lei de extradição. Dezenas de milhares de trabalhadores de diversos setores – incluindo de ferrovias, aeroportos, setor público, engenharia, construção, finanças e sistema bancário – juntaram-se às manifestações, parando o sistema de transportes de Hong Kong e limitando as operações no aeroporto internacional da cidade.

A greve não foi organizada pelos sindicatos, mas, assim como os próprios protestos, aconteceu por iniciativa dos trabalhadores. A Confederação de Sindicatos (CTU, na sigla em inglês), que é alinhada com a oposição oficial no Conselho Legislativo da cidade – o grupo pan-democrata – e conta com aproximadamente 200 mil membros, não convocou seus sindicatos a participarem da greve, apesar de apoia-la nominalmente.

A entrada da classe trabalhadora nos protestos indica que existem forças sociais e econômicas subjacentes que os estão impulsionando. As exigências dos líderes dos protestos até agora têm se limitado à retirada do projeto de lei de extradição, a renúncia da chefe do Executivo, Carrie Lam, a retirada das acusações criminais contra os manifestantes, um inquérito independente para apurar os ataques dos policiais e eleições livres e abertas baseadas no sufrágio universal.

Entretanto, a classe trabalhadora não enfrenta apenas a ausência de direitos democráticos básicos, mas uma crise econômica e social cada vez pior. Apesar de os bilionários de Hong Kong, muitos dos quais possuem conexões íntimas com o Partido Comunista Chinês (PCC) em Pequim, dominarem a economia, a maioria das pessoas luta para sobreviver em uma das cidades mais caras do mundo. Cerca de 20% da população vive abaixo da linha da pobreza, morando em acomodações superlotadas e inadequadas – como as “casas-caixão” – e recebendo auxílio limitado dos poucos serviços de bem-estar social de Hong Kong.

Os protestos em massa em Hong Kong, que estão acontecendo há mais de dois meses e chegaram a levar às ruas mais de um quarto da população da cidade, são parte de um ressurgimento da classe trabalhadora internacionalmente, impulsionado por uma crise cada vez maior do capitalismo global. Os levantes de oposição popular ocorrem juntos com as grandes manifestações de massas no território estadunidense de Porto Rico, enormes greves na Índia e o movimento dos “coletes amarelos” na França, apenas para citar alguns dos mais recentes protestos no mundo.

Os protestos em Hong Kong são a ponta de lança de um levante da classe trabalhadora em toda a região, incluindo na própria China. Cruzando a fronteira, dezenas de milhões de trabalhadores industriais chineses são intensamente explorados na Zona Econômica Especial de Shenzhen e nas cidades vizinhas. A pressão de Pequim para que Hong Kong aprove o projeto de lei de extradição para a China continental é motivada por preocupações de que a cidade sirva como um porto seguro para dissidentes e pessoas críticas que possam incitar a oposição política na China.

As ameaças veladas do PCC de usar as forças armadas para suprimir os protestos de Hong Kong tem sua origem no medo de que as greves e manifestações possam encorajar os trabalhadores em outras partes da China a lutarem pelos seus direitos sociais e democráticos. Apesar da pesada repressão de estado-policial e da censura, existem sinais de que greves e manifestações realizadas pelos trabalhadores chineses estejam aumentando. O número de greves registrado pelo “China Labour Bulletin”, sediado em Hong Kong, aumentou de 1.250 para mais de 1.700 entre 2017 e 2018, que constitui uma pequena fração do total.

Ninguém pode duvidar da coragem e determinação dos manifestantes em sua luta por direitos democráticos básicos. Além disso, muitos deles se opõem aos pan-democratas, que representam camadas da elite empresarial de Hong Kong e estão preocupadas com o avanço de Pequim contra os seus interesses. O que falta, entretanto, é uma alternativa política clara para conduzir a luta, não apenas contra o governo de Hong Kong liderado por Carrie Lam, mas contra o regime do PCC em Pequim.

Os seguintes princípios fundamentais devem sustentar a perspectiva política levada adiante pela classe trabalhadora.

Em primeiro lugar, ela precisa se basear no internacionalismo e na rejeição de todas as formas de nacionalismo, incluindo a visão provincial dos grupos separatistas de Hong Kong, que culpam os chineses continentais pela deterioração das condições sociais e econômicas na cidade. Apenas através de uma luta unificada dos trabalhadores de toda a China é possível lutar contra a burocracia stalinista em Pequim e contra os seus lacaios políticos em Hong Kong, que deve fazer parte de um movimento internacional mais amplo contra o capitalismo.

Em segundo lugar, a classe trabalhadora precisa consolidar sua independência política de todas as frações da classe dominante. Aquelas camadas da elite empresarial que defendem mais direitos democráticos e maior autonomia para Hong Kong apenas o fazem para impulsionar suas próprias posições e aumentar seus lucros explorando a classe trabalhadora. Além disso, os trabalhadores devem rejeitar aqueles que apelam para que os imperialismos estadunidense e britânico intervenham em nome da democracia em Hong Kong.

Os EUA e seus aliados não se preocupam com os direitos democráticos em Hong Kong ou em qualquer outro lugar. Eles exploraram repetidas vezes a bandeira dos “direitos humanos” como o pretexto para o enfrentamento e a guerra. A administração Trump agora está acelerando de forma inconsequente sua guerra econômica e escalada militar em toda a região do Indo-Pacífico contra a China. Qualquer apoio dos EUA aos protestos em Hong Kong seria simplesmente uma mentira para pressionar Pequim.

Em terceiro lugar, a luta pelos direitos democráticos da classe trabalhadora está ligada completamente à luta pelo socialismo e por direitos sociais fundamentais, como emprego digno, saúde, educação, e moradia acessível. A falta de liderança política na classe trabalhadora em Hong Kong e na China é um produto, acima de tudo, da falsa identificação do maoísmo e o stalinismo com os genuínos marxismo e socialismo.

A construção da liderança revolucionária na classe trabalhadora chinesa requer o esclarecimento das experiências estratégicas do século XX e das traições do stalinismo, incluindo na China. A perspectiva nacionalista reacionária do “socialismo em um país”, que guiou Mao e a liderança do PCC, produziu consecutivos desastres, abrindo o caminho para a restauração do capitalismo de 1978 em diante. Se o imperialismo britânico estava disposto a devolver sua colônia de Hong Kong para a China em 1997, não foi por causa do slogan de “um país, dois sistemas”, mas porque só havia um sistema – o capitalismo – em toda a China.

As lições históricas necessárias têm sua origem na luta de quase um século do movimento trotskista mundial – representado hoje pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) – contra o stalinismo. Nós chamamos os trabalhadores e a juventude em Hong Kong que procuram por um caminho a seguir a entrar em contato conosco e iniciar um diálogo político sobre essas questões essenciais.

Peter Symonds