Os 50 anos da chegada do homem à Lua

27 Julho 2019

Publicado originalmente em 20 de Julho de 2019

Há 50 anos – às 16h17 (horário da costa leste dos EUA) do dia 20 de julho de 1969 –, Neil Armstrong e Edwin (Buzz) Aldrin tornaram-se os primeiros homens a pousar na Lua. Estima-se que 650 milhões de pessoas assistiram pela TV os dois astronautas da missão Apollo deixarem o Módulo Lunar e se tornarem os primeiros seres humanos a pisar em outro astro do nosso sistema solar.

Quatro dias depois, Armstrong, Aldrin e Michael Collins completaram sua missão com sucesso pousando no Oceano Pacífico, voltando para casa em segurança de sua jornada de 387.000 km até o vizinho mais próximo da Terra.

Meio século depois, a chegada do homem à Lua continua sendo uma conquista científica, técnica e organizacional, uma demonstração inspiradora de duas poderosas verdades que na época atual estão constantemente sob o ataque de tendências reacionárias e irracionalistas, do fundamentalismo religioso ao pós-modernismo: 1. A razão humana é capaz de compreender o mundo, através do desenvolvimento do conhecimento científico de suas leis inerentes e propriedades objetivas; e 2. Utilizando tecnologia baseada na ciência, e com um esforço comum socialmente organizado, a humanidade pode aproveitar a natureza para seus propósitos.

Neil Armstrong dando os primeiros passos da humanidade na Lua. Crédito: Apollo 11, NASA

Em comentários feitos do espaço quando a Apollo 11 se aproximava da Terra em sua viagem de volta, antes da reentrada na atmosfera do nosso planeta, talvez a parte mais perigosa da arriscada missão, Armstrong homenageou primeiramente os “gigantes da ciência que antecederam esse esforço” e agradeceu “especialmente todos os estadunidenses que construíram a espaçonave; quem a construiu, elaborou seu design, os testes e colocou seus corações e todas as suas habilidades nesse empreendimento ... ”.

Copérnico, Galileu, Kepler, Newton, Faraday, Maxwell, Einstein: esses foram os pioneiros intelectuais da chegada do homem à Lua. Em seguida, vem a série de engenheiros brilhantes que resolveram incontáveis problemas técnicos envolvendo uma viagem de sete etapas da superfície da Terra para a superfície da Lua, e seu retorno.

Como descreveu recentemente Charles Fishman sobre o programa Apollo, quando o presidente John F. Kennedy, em maio de 1961, estabeleceu o objetivo de o homem chegar à Lua antes do final da década:

A NASA não possuia foguetes para lançar astronautas à Lua, nenhum computador portátil o suficiente para levar uma espaçonave até a Lua, nenhum traje espacial para usar no caminho, nenhuma espaçonave para pousar astronautas na Lua (muito menos um veículo lunar para se mover pela superfície e explorá-la), nenhuma rede de estações de monitoramento para conversar com os astronautas durante a viagem. No dia do discurso de Kennedy, nenhum ser humano jamais havia aberto uma janela no espaço e saído; nunca duas espaçonaves tripuladas que já tinham estado no espaço juntas ou tinham tentado se encontrar umas com as outras. Ninguém possuía uma real ideia de como era a superfície da Lua e que tipo módulo de pouso seria necessário ... (Charles Fishman, One Giant Leap, 2019, Simon & Schuster, p. 6)

A experiência humana no espaço sideral até aquele momento limitava-se ao voo ao redor da Terra do cosmonauta soviético Yuri Gagarin e o voo sub-orbital do astronauta americano Alan Shepard, em abril e maio de 1961, respectivamente.

Uma vez iniciado, o programa Apollo tornou-se um grande empreendimento social, absorvendo mais da metade dos gastos com pesquisa e desenvolvimento dos Estados Unidos. Ele foi três vezes maior do que o Projeto Manhattan, que desenvolveu a bomba atômica, e dez vezes maior do que o esforço necessário para construir o Canal do Panamá. Fishman ainda observa que:

Nos três anos em que o programa Apollo mais empregou, mais estadunidenses estavam trabalhando na missão lunar do que lutando no Vietnã. Em 1964, 380.000 pessoas já estavam trabalhando no Apollo, e apenas 23.300 soldados tinham sido enviados ao Vietnã. Em 1965, o Apollo tinha 411.000 funcionários e havia 184.300 soldados dos EUA no Vietnã. Mesmo em 1966, quando as forças estadunidenses no Vietnã dobraram para 385.300, nos EUA havia 396.000 estadunidenses trabalhando no Apollo ...

Nos três anos em que o programa Apollo mais empregou – 1964, 1965, 1966 –, a NASA e o programa Apollo possuíam mais funcionários e prestadores de serviços do que todas as empresas da Fortune 500, exceto a General Motors, com mais de 600.000 empregados. A NASA era maior que a Ford, a GE e a US Steel. (Ibid., p. 21)

Fishman calcula que “Cada hora de voo espacial exigia mais de 1 milhão de horas de trabalho no solo – um nível surpreendente de preparação”.

Um paradoxo do programa Apollo era que o mesmo imperativo político que o lançou – o conflito da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética – criou as condições para sua erosão e fim definitivo. Ao mesmo tempo, as enormes conquistas tecnológicas eram, sob o capitalismo, continuamente subordinadas à guerra e à destruição.

Os sucessos iniciais das missões espaciais soviéticas, desde o lançamento do Sputnik, em 1957, até a primeira viagem espacial de um homem, com Gagarin, em 1961, foram vistos pelo imperialismo dos EUA como uma ameaça mortal. Mísseis que poderiam colocar satélites em órbita poderiam carregar armas atômicas.

Kennedy realizou sua campanha presidencial, em 1960, sobre a “brecha dos mísseis” com a União Soviética. Ele discursou no Congresso estabelecendo a meta de pousar na Lua apenas um mês após a derrota humilhante na Baía dos Porcos, quando uma força expedicionária de exilados cubanos apoiada pelos EUA foi derrotada e forçada a se render ao regime de Castro apoiado pelos soviéticos.

Kennedy e seu vice-presidente, Lyndon Johnson, que continuou o programa Apollo após o assassinato de JFK em 1963, estavam interessados principalmente nos benefícios políticos e estratégicos da “corrida espacial” contra a URSS. A Lua era uma prioridade por razões puramente terrenas, não tendo nada a ver com o caráter histórico do esforço ou seu significado científico.

Foto panorâmica do Mare Tranquillitatis da Lua, o local de pouso apelidado de Base da Tranquilidade. Crédito: Neil Armstrong, Apollo 11, NASA

Os números comparativos de funcionários da NASA e de soldados destacados no Vietnã são reveladores: em 1967, a escalada da guerra absorveu tanto recurso dos EUA que as reformas sociais iniciadas como parte do programa “Grande Sociedade” de Johnson e a corrida à Lua iniciada por Kennedy começaram a ser impactadas.

Além disso, tendo os EUA conseguido levar o homem à Lua, dando a ele uma enorme vitória propagandística sobre a União Soviética, os líderes do imperialismo estadunidense perderam o interesse na corrida espacial. Todos as viagens tripuladas à Lua foram realizadas ao longo dos três anos seguintes, durante o primeiro mandato de Richard Nixon. Depois de 1972, cercado politicamente pelo escândalo Watergate e enfrentando a derrota no Vietnã e uma crise econômica global enraizada no declínio relativo do capitalismo estadunidense, Nixon reduziu o programa espacial, rejeitando propostas para uma base permanente na Lua ou quaisquer outras viagens espaciais. Os sucessores de Nixon seguiram o seu exemplo.

Essa história sugere outro paradoxo: enquanto o programa Apollo realizou avanços históricos utilizando tecnologia que seria considerada primitiva hoje, os enormes desenvolvimentos na ciência e tecnologia nos últimos 50 anos não levaram a outra exploração tripulada do sistema solar, ou mesmo da Lua.

O Computador de Navegação do Apollo (AGC, na sigla em inglês), que operava a espaçonave como as instruções dos astronautas, foi o primeiro dispositivo de computação a utilizar circuitos integrados. Todos os computadores anteriores foram construídos com transistores, muito volumosos e não confiáveis para uso no espaço. O AGC tinha 73 kilobytes de memória, incluindo apenas 3.840 bytes de memória RAM, menor do que a de um forno micro-ondas atual.

O programa Apollo ajudou a impulsionar a revolução digital, particularmente pelo desenvolvimento da fabricação precisa de circuitos integrados, que aumentou a confiabilidade dos microchips do padrão de aviação de uma falha em 10.000 para impressionante uma falha em 312 milhões para chips utilizados nos computadores de bordo e outros sistemas da NASA.

Os avanços científicos e tecnológicos dos últimos 50 anos permitiram que a NASA realizasse proezas extraordinárias na exploração não tripulada, com sondas espaciais robóticas atingindo todos os planetas e adquirindo mais conhecimento do sistema solar nos últimos 40 anos do que em toda a história anterior.

Uma meia Terra ao fundo enquanto o módulo lunar com Buzz Aldrin e Neil Armstrong retorna ao módulo de comando, pilotado por Michael Collins, terminando a primeira exploração humana da superfície da Lua. Crédito: Michael Collins, Apollo 11, NASA

Mas nas viagens espaciais tripuladas, os horizontes de exploração da NASA foram reduzidos para a órbita da Terra. Todos os esforços foram concentrados no desenvolvimento do Ônibus Espacial, utilizado para levar satélites de vigilância militares pesados às suas órbitas e para construir a Estação Espacial Internacional. Depois dos desastres do Challenger, em 1986, e do Columbia, em 2003, os ônibus espaciais, baseados no que na época era uma tecnologia extremamente ultrapassada, foram extintos. Hoje, os astronautas dos EUA são levados para a Estação Espacial Internacional em foguetes russos, enquanto um foguete dos EUA permanece na prancheta.

O atual renascimento de missões espaciais é o produto de intensas tensões geopolíticas. Os Estados Unidos, a Rússia, a China, a Índia, a França, a Grã-Bretanha, até mesmo Israel e Irã, estão envolvidos em lançamentos de mísseis e no envio de satélites ao espaço. Como a “corrida espacial” dos anos 1960, esse renascimento é impulsionado pela competição direta de potências rivais que consideram o espaço como o “terreno elevado” na próxima série de guerras mundiais.

A administração Trump, como em todas as outras esferas, expressa isso de forma mais grosseira, com o presidente orgulhosamente tendo anunciado a criação de uma Força Espacial, incialmente para ser operada como uma unidade da Força Aérea, mas claramente destinada a se tornar uma grande força militar independente. A criação da Força Espacial viola diretamente o consenso internacional de 1958, após o lançamento do Sputnik, de que o espaço não deve se tornar um teatro de operações militares. Todas as várias potências capitalistas estão rompendo esse entendimento, desenvolvendo, por exemplo, mísseis para derrubar satélites de localização e de outros usos militares de seus rivais.

E como sempre com Trump, poucos favorecidos ganharão muito dinheiro. Dezenas de empresas privadas estão entusiasmadas com a possibilidade de oferecer seus serviços para uma nova investida dos EUA no espaço, lucrando com o crescimento de novas aquisições do governo federal.

Mesmo no auge do programa Apollo, havia uma tensão inerente entre o impulso capitalista para obter lucros e a segurança da missão. A seguinte piada sombria foi atribuída a vários astronautas – Alan Shepard, John Glenn ou Gus Grissom: “Minha vida depende de 150.000 peças de equipamento – cada uma comprada pelo menor preço”. Grissom morreu no trágico incêndio que tirou a vida de três astronautas em janeiro de 1967.

Hoje, o impulso em direção ao lucro é mais descarado e pernicioso. O Wall Street Journal informou na quinta-feira sobre a nova corrida do ouro depois de Trump anunciar uma missão tripulada à Lua em 2024 (antes do final de um segundo mandato). O Journal citou um defensor dos empreendimentos espaciais privados, Rick Tumlinson, da SpaceFund, que disse: “‘Se o governo vai injetar bilhões de dólares em um retorno à Lua’, ele deve promover iniciativas do setor privado ao longo do caminho. ‘Caso contrário, eu o considerarei um fracasso – e a história também.’”

Então, se a humanidade retornar à Lua, mas nenhuma corporação lucrar com essa viagem espacial, o esforço é um fracasso. Que acusação contra o capitalismo – da boca de um de seus próprios propagandistas.

Como todas as tarefas historicamente progressistas, o avanço da humanidade no espaço depende da superação das barreiras erguidas pelo sistema de lucro: a propriedade privada dos meios de produção e a divisão do mundo em estados-nações rivais e concorrentes. Em outras palavras, ele depende do desenvolvimento de um movimento independente da classe trabalhadora mundial, baseado em um programa socialista.

Patrick Martin