Partido dos Trabalhadores elogia políticos imperialistas e militares brasileiros envolvidos na operação de mudança de regime na Venezuela

Por Miguel Andrade
18 Fevereiro 2019

Publicado originalmente em 9 de Fevereiro de 2019

A viagem à Europa do candidato à presidência do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, que encontrou e elogiou políticos imperialistas que estão na linha de frente da operação de mudança de regime na Venezuela, é mais uma exposição das falsas alegações do partido em representar uma oposição “antifascista”, tanto no Brasil quanto no exterior.

Haddad esteve em Portugal e na Espanha na terceira semana de Janeiro para promover a formação da chamada Internacional Progressista, anunciada no final de 2018 pelo senador estadunidense Bernie Sanders e pelo ex-Ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis.

A viagem foi planejada para coincidir com o Fórum Econômico Mundial em Davos e permitir que Haddad se apresentasse internacionalmente como a alternativa ao novo presidente fascista do Brasil, o ex-capitão do exército, Jair Bolsonaro, que foi convidado para realizar o discurso de abertura do encontro de bilionários.

Haddad se encontrou com políticos dos governos de Portugal e da Espanha, ao mesmo tempo que o governo espanhol do Partido Socialista criticava publicamente a União Europeia por não se juntar à operação de mudança de regime na Venezuela, que o PT supostamente se opõe. Ele também está se articulando para se aproximar da administração Tsipras na Grécia, que impôs brutal austeridade e governa em aliança com o partido militarista de direita Gregos Independentes, apoiado por magnatas bilionários do setor de transporte marítimo.

A decisão de envolver Tsipras na frente “antifascista” representada pela Internacional Progressista também desmascara as alegações de Varoufakis de que ele rompeu com o Syriza depois de ajudá-lo a forjar a aliança com os Gregos Independentes, e montar a armadilha do fraudulento referendo de austeridade de 2015, em que uma clara maioria votou, sem efeito, contra as medidas de austeridade, uma vez que Tsipras as aplicou mesmo assim.

Essa tentativa de apresentar políticos de vários governos que são pilares da União Europeia como um baluarte contra o fascismo e a reação política é coerente com o resoluto acobertamento político do PT do papel dos militares brasileiros no governo Bolsonaro, já mergulhado em crise.

Esse esforço é cada vez mais concentrado em apresentar o vice-presidente de Bolsonaro, Gen. Hamilton Mourão, como uma alternativa “razoável”, “nacionalista”, “democrática” e mesmo “pró-aborto” em relação a Bolsonaro, principalmente elogiando sua moderação frente à crise venezuelana, que levou Mourão a ser exaltado de maneira febril.

Tais elogios tem sido expressos principalmente através do site porta-voz do PT, Brasil247, com uma série de reportagens fabricadas sobre as “batalhas” de Mourão contra Bolsonaro e seu Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, a quem o Brasil247 se refere com cínica superficialidade como “insano” por ecoar a administração Trump na formulação da atitude em relação à Venezuela.

Lendo o Brasil247 tem-se a certeza de que Mourão, punido duas vezes pelo Alto Comando do Exército por incitar os militares contra os presidentes Dilma Rousseff e Michel Temer em 2015 e 2017, respectivamente, lideraria um golpe altruísta e redentor contra Bolsonaro para livrar o Brasil do fascismo e do fanatismo cristão se ele tivesse apoio suficiente.

Nos primeiros dias de Mourão como presidente interino enquanto Bolsonaro estava em Davos, o Brasil247 o elogiou, escrevendo: “Enquanto Bolsonaro foge de coletiva, Mourão exalta a mídia”. Depois que o deputado do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Jean Wyllys, anunciou no final de Janeiro que deixaria o país devido a ameaças de morte de criminosos suspeitos de terem executado a vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, em Março de 2018 – uma execução que tem conexões com o próprio Bolsonaro – o Brasil247 escreveu: “Mourão confronta Bolsonaro e diz que ameaça a parlamentar é crime contra democracia”. A fraudulenta reportagem não mencionou que Mourão, na frase seguinte, disse: “Ele sabe qual é o grau de confusão que ele está metido”, sugerindo que Wyllys poderia ter sido ameaçado devido a um suposto envolvimento com o crime organizado – exatamente o que a extrema direita alegou para justificar o assassinato de Marielle Franco.

Depois que o irmão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) morreu e o pedido dos advogados de Lula para ele deixar a prisão – onde o PT diz que ele é mantido como prisioneiro político dos militares – e participar do velório foi negado, o Brasil247 escreveu: “Mourão diz que Lula deve ir ao velório: questão humanitária”.

Então, em 1˚ de Fevereiro, depois que Mourão foi entrevistado pelo jornal O Globo, o Brasil247 reportou: “Mourão defende aborto: decisão da mulher”, acrescentando que se trata de “uma declaração que confronta diretamente o bolsonarismo, especialmente sua vertente fundamentalista” e que “a declaração é bombástica e deve abrir mais uma crise intestina no governo Bolsonaro”. Nenhum comentário foi feito ao fato de Mourão ter dito: “minha opinião como cidadão, não como membro do governo, é que se trata de uma decisão da pessoa”. Essa declaração é basicamente a mesma que Bolsonaro havia feito em sua campanha eleitoral, segundo a qual as mulheres devem ter o direito ao aborto, mas ele nunca tocaria no assunto enquanto estivesse governando – exatamente o que o PT fez durante seus quatro mandatos.

A mais grave das mentiras, entretanto, é a de que Mourão está defendendo uma política “não-intervencionista” em relação à Venezuela que representa a posição dos militares brasileiros, em oposição ao alinhamento de Bolsonaro com a operação liderada pelos EUA para mudar o regime em Caracas. Ao longo de toda essa operação, o Brasil247 publicou inúmeras reportagens tomando como verdade as declarações de Mourão de que o Brasil não interviria na Venezuela, e que a intervenção era um “desejo de Bolsonaro”. O membro do conselho editorial Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores e da Defesa durante os governos do PT, escreveu no último mês que os militares poderiam “salvar a política externa brasileira”. Ele então afirmou em uma entrevista ao próprio Brasil 247 que “ao negar invadir Venezuela, Mourão acaba sendo o mais sensato”.

Em 3 de Fevereiro, o colunista da Folha de S. Paulo, Igor Gielow, expôs finalmente o conteúdo real da “política não intervencionista” dos militares brasileiros: eles foram contra apoiar um documento elaborado pelo Grupo de Lima que exigiria que o Brasil “suspendesse a cooperação” com os militares venezuelanos, pois isso isolaria as forças armadas brasileiras da“realidade do terreno”. Não reportado pelo Brasil247 foi o fato de que Mourão já havia declarado para a Folha de S. Paulo em 31 de Janeiro que “a crise venezuelana só será resolvida a partir do momento em que as Forças Armadas venezuelanas se derem conta de que não dá para continuar da forma como está”, e que “esse momento está chegando”. Em outras palavras, havia uma divergência estritamente tática dentro do governo brasileiro sobre como melhor avançar os interesses do capital nacional fora do país, com os militares acreditando que precisavam manter seus canais abertos com militares venezuelanos para auxiliar na organização de um golpe. Isso foi promovido pelo porta-voz do PT como uma resistência resoluta dos militares brasileiros ao imperialismo e seu agente, Bolsonaro.

Essa clara campanha febril pró-militar divulgada pelos porta-vozes do PT na imprensa, nos sindicatos e nas universidades já resultou em uma tentativa de acobertamento, com colunistas fingindo estarem surpresos que “o vice-presidente parece ter virado um oponente do presidente, o que o fez ganhar simpatia de muita gente na esquerda”, como João Filho escreveu no Intercept. Gustavo Conde, em 2 de Fevereiro reagiu a isso com raiva em sua coluna no Brasil247, denunciando aqueles que dizem “que a esquerda está ‘flertando com Mourão’”, sendo considerados de um “puritanismo progressista de auditório [que] é inimigo da democracia”. Tais comportamentos, ele escreve, demonstram que “o derretimento da interpretação de texto não é exclusividade da direita”. Ele conclui defendendo tal apoio, dizendo que “com Mourão desenvolto, fritando a cabeça dos aliados incompetentes de Bolsonaro, toda a cena tende a ser extremamente tóxica para esse fascismo subdesenvolvido que se impregnou no Brasil como uma peste. Esse é o ponto a ser observado e potencializado (ênfase adicionada).”

Tal absoluta prostração diante do crescente controle do governo pelos militares brasileiros também encontra expressão na pseudo-esquerda. Os autointitulados “trotskistas” da organização Resistência, que atua dentro do PSOL, publicou em seu site Esquerda Online um artigo de Luis Felipe Miguel expressando a esperança de que Mourão seja “capaz de conduzir a nau evitando maiores intempéries” e que um “governo mais razoável faria talvez acenos à opinião pública, interna e externa, mudando parte de sua composição – por exemplo, tirando o criminoso ambiental do Ministério do Meio Ambiente”.

O que unifica a pseudo-esquerda, o PT e Mourão é sua posição de classe. O PT e a pseudo-esquerda estão expressando seu ódio e desprezo burguês e de classe média alta pela classe trabalhadora, considerando-a responsável pela saída dos “prestigiosos” governos do PT. Se, por um lado, tanto os governos do PT quanto os chavistas na Venezuela foram responsáveis por lucros recordes do mercado financeiro, que agora estão ameaçados pelo fato de Bolsonaro querer cortar laços com a China e a União Europeia, por outro, temem um desenvolvimento explosivo da luta de classes.

Ninguém expressa melhor essas posições quanto Eliane Brum, jornalista das páginas de opinião blairistas do Guardian e do El País que fez campanha pelo PT no segundo turno da eleição do ano passado. Seu ódio ilimitado e desavergonhado pela classe trabalhadora foi demonstrado muitas vezes. Em um artigo publicado no El País, ela escreveu que a eleição de Bolsonaro representou “o homem mediano assumindo o poder”, e, durante a greve dos caminhoneiros em Maio do ano passado, ela escreveu que centenas de milhares de trabalhadores estavam em greve porque viam sua “masculinidade ameaçada pelo crescimento do protagonismo das mulheres e das pessoas LGBTs”.

O apoio a Mourão de pessoas dessas camadas sociais é explicado em sua coluna de 30 de Janeiro no El Pais intitulada “Mourão, o moderado”. Com o objetivo de criticar os elogios feitos a Mourão, no entanto, ela acabou escrevendo sobre si própria, declarando: “Mesmo quem fez campanha contra tudo o que ele [Bolsonaro] representa, torceu nesta hora para que algum assessor tivesse feito o trabalho para o qual é pago. Porque agora é o Brasil. O vexame de Bolsonaro é a vergonha de todos.”

Uma ruptura completa com a política de direita do PT e de seus defensores é a tarefa central que a classe trabalhadora no Brasil enfrenta para se defender da reação política e dos amplos ataques contra suas condições de vida.