Trabalhadores da GM no Brasil discutem o chamado para a formação de comitês de base

Por nossos repórteres
24 Janeiro 2019

Publicado originalmente em 19 de Dezembro de 2018

Depois do encontro público de 9 de Dezembro em Detroit organizado pelo World Socialist Web Site para lutar contra o fechamento de fábricas da General Motors nos EUA e Canadá, uma equipe de reportagem do WSWS retornou para a fábrica da GM em São Caetano do Sul, São Paulo, a fábrica automotiva mais antiga do Brasil, para distribuir a decisão do encontro de construir comitês de base de trabalhadores em oposição aos sindicatos e conversar com os trabalhadores sobre a situação que enfrentam na fábrica e a luta global dos trabalhadores automotivos.

“Eu acho absurdo [as demissões anunciadas]. A GM só pensa em aumentar seus lucros”, disse Renato, trabalhador da GM, com raiva para os repórteres.

Mostrando solidariedade com os trabalhadores que estão para ser demitidos, outro trabalhador, Marcos, disse que “As demissões significam que 15.000 pais de família vão pra rua”. Quando os repórteres contaram sobre a decisão de constituir comitês de base, ele disse que os sindicatos “infelizmente não estão lutando. Hoje, nenhum deles está lutando como no passado”. Ele ainda acrescentou que só paga as mensalidades do sindicato local porque existem “alguns benefícios, como descontos em remédios e uma colônia de férias”.

Entrada da fábrica da GM em São Caetano do Sul

Entretanto, mais de duas semanas depois da GM anunciar sua decisão de fechar fábricas nos EUA e Canadá, muitos trabalhadores automotivos ainda não sabiam sobre os fechamentos. Aqueles que sabiam descobriram através de conversas com outros trabalhadores no WhatsApp e outras redes sociais.

Outros, como Maurício, disse aos repórteres do WSWS que soube “sobre os fechamentos das fábricas através de sites de notícias”, e que “o sindicato não nos informou sobre o fechamento das fábricas”.

Esse papel do sindicato local em isolar os trabalhadores em suas próprias fábricas também tem sido utilizado para tirar mais direitos dos trabalhadores nos contratos fechados entre os sindicatos e as montadoras diante da possibilidade de fechar outras fábricas. Quando perguntado por que a fábrica da GM de São José dos Campos, a 80 km ao norte de São Caetano, foi a única que não recebeu investimentos nos últimos anos – e existem rumores de que possa ser fechada – Eduardo, um trabalhador há 10 anos na GM, disse: “O que ouvimos do nosso sindicato é que o sindicato de São José é muito rígido”.

Outro trabalhador, Jefferson, confirmou o que Eduardo disse: “Eles [os dirigentes do sindicato local, controlado pela ultra-pelega Força Sindical] disseram que o sindicato [de São José dos Campos] é muito ‘forte’, e não aceita nada”.

A suposta “rigidez” do sindicato de São José, controlado pela central sindical Morenista CSP-Conlutas, porém, não conseguiu impedir a GM de demitir dois terços dos 12.000 trabalhadores que possuía no início dos anos 2010. A única resposta da CSP-Conlutas foi uma ameaça vazia de processar a GM por uma promessa não cumprida de trazer novos investimentos para a fábrica local, sem fazer qualquer tentativa de mobilizar os trabalhadores contra as demissões.

A situação da GM em São Caetano contrasta com o fechamentos de fábricas da montadora ao redor do mundo. Em Fevereiro deste ano, a GM apresentou planos de expansão para o complexo de São Caetano, com um investimento de 1,2 bilhão de reais envolvendo uma nova instalação de 400.000 metros quadrados, que aumentará a produção de veículos de 250.000 para 330.000 por ano. Além disso, a GM planeja investir 13 bilhões de reais no Brasil até 2020, de acordo com o site da montadora. Ao mesmo tempo, desde 2015, a GM fechou fábricas na Europa, Austrália, Rússia, Indonésia, Índia e África do Sul, além dos recentes anúncios de fechamento de fábricas nos EUA e Canadá.

Esses investimentos, porém, foram feitos no Brasil a partir de recentes ataques aos trabalhadores automotivos, que incluem a demissão de trabalhadores com mais tempo de serviço, congelamentos de salários e a incapacidade dos sindicatos de lutar contras as terceirizações generalizadas, criando uma situação de permanente crise e incerteza para milhares de trabalhadores.

De acordo com o UOL, os investimentos da GM na fábrica de São Caetano incluirão uma nova plataforma de exportação automotiva, que produzirá um novo SUV e substituirá o modelo Tracker importado do México. Esse plano de investimentos também coincide com a introdução de um novo modelo de carro elétrico da GM no Brasil - o Bolt EV - para o próximo ano, anunciado em Novembro durante o Salão do Automóvel de São Paulo. O vice-presidente da GM Mercosul, Marcelo Munhoz, disse que a companhia tem a intenção de trazer a produção do Bolt EV para a fábrica de São Caetano.

O Salão do Automóvel deste ano também assistiu o presidente Michel Temer (MDB) assinar um decreto implementando o tão esperado Rota 2030, um programa massivo de cortes de impostos para as empresas automotivas que tem “como objetivo estimular a produção de carros mais seguros e limpos para tornar a indústria nacional mais competitiva”. O Rota 2030 reduz os impostos sobre veículos elétricos e mais eficientes em geral, e provavelmente veículos autônomos no futuro. A parte mais importante do programa é um corte de impostos de até 1,5 bilhão de reais para montadoras que investirem pelo menos 5 bilhões de reais em pesquisa para tais empreendimentos.

A Volkswagen, que recentemente divulgou o Roadmap E, seu programa para produzir veículos elétricos, anunciou no início de Dezembro que fabricará seu primeiro caminhão elétrico no Brasil até 2022, transformando a fábrica de Resende, Rio de Janeiro, em uma das suas 16 fábricas ao redor do mundo da montadora que produzirá veículos elétricos. Depois do anúncio do Rota 2030, a VW também anunciou o teste de seu ônibus híbrido no Brasil para o ano que vem.

Os planos de investimento da GM e da VW no Brasil foram acompanhados recentemente por outras grandes montadoras, como Scania, Mercedes-Benz e Mitsubishi, seja com o aumento da produção, novas contratações ou a introdução de mais turnos de trabalho. Entretanto, o aumento de 15% na produção de veículos no Brasil este ano em relação a 2017 ocorreu apenas depois de três anos consecutivos de quedas na produção, durante o qual o país sofreu sua pior crise econômica em 100 anos. A produção de veículos no Brasil, que em 2010 era a quita maior do mundo e hoje caiu para a oitava, apesar do aumento, está retornando aos mesmos níveis de 2015.

O jornalista automotivo do UOL, Fernando Calmon, considerou o Rota 2030 “o acontecimento mais importante desde que a indústria automotiva foi regulamentada [no Brasil], em 1956”. Ele é parte da resposta do governo brasileiro aos planos de reestruturação global da indústria automotiva e seu deslocamento em direção à produção de veículos elétricos. Para trabalhadores automotivos, entretanto, seus efeitos serão desastrosos.

Durante a cerimônia de lançamento do Rota 2030 na última terça-feira, 11 de Dezembro, o presidente da Toyota no Brasil, Rafael Chang, além de anunciar um plano de investimento de 1 bilhão de reais para produzir o primeiro carro híbrido flex do mundo no Brasil, disse que a “reforma trabalhista [aprovada em Julho do ano passado] foi outro passo importante para fortalecer a economia e encorajar novos investimentos”. Junto com lei da terceirização aprovada em Março de 2017 pelo Congresso Brasileiro, que permitiu que as empresas terceirizem também as atividades fim, a reforma trabalhista tornará os salários dos trabalhadores automotivos ainda menores e as condições de trabalho ainda mais precárias. De acordo com o site britânico Auto Express, “No Brasil, o pagamento por hora de trabalho é apenas um dólar maior do que na China, de 6,17 dólares em média”.

Apesar da fábrica de São Caetano não possuir trabalhadores terceirizados na linha de montagem, Douglas, um serralheiro terceirizado recentemente contratado disse que “na época de férias coletivas, chegam a ter quase 100 empresas terceirizadas atuando na GM, fazendo adequação, modificação e manutenção, como a instalação de células de robôs”. Entretanto, outro trabalhador da GM, Mauricio, acredita que a contratação de terceirizados na linha de montagem “vai acontecer aqui [...] e será extremamente prejudicial para os trabalhadores”. No Brasil, os salários dos trabalhadores terceirizados são 25% menores e eles trabalham três horas a mais por semana do que os trabalhadores contratados diretamente pela empresa.

No ano que vem, sob a presidência do fascista ex-capitão do Exército, Jair Bolsonaro, as tensões de classe no Brasil aumentarão. Na última quinta-feira, 13 de Dezembro, Bolsonaro elogiou as mudanças na lei trabalhista. Segundo o jornal Folha de São Paulo, Bolsonaro “pretende fazer novas flexibilizações [na lei trabalhista] porque o empresário é desestimulado no Brasil devido ao ‘excesso’ de direitos dos trabalhadores”.

Respondendo à declaração de Bolsonaro, José, trabalhador da GM, disse que “Ele insiste em falar isso. Eu acho que a classe que tem mais direitos é aquela a qual ele pertence”. Quando perguntado sobre uma maneira de combater as ameaças de Bolsonaro contra os trabalhadores, José disse que, através dos sindicatos existentes, os trabalhadores “não vão entrar em uma luta que já sabemos que vamos acabar perdendo”. Ele disse ainda que, “Antigamente era total a oposição entre sindicato e empresa, mas hoje, acho que não é tanto assim. ... Eu acho que o sindicato tem que defender o trabalhador, mas não sei de que maneira isso vai acontecer. Aquela realidade sindical não vai voltar mais”.

Depois que a “frente popular” formada por centrais sindicais, movimentos sociais e partidos da pseudo-esquerda não conseguiram organizar qualquer resistência contra a aprovação da reforma trabalhista de Temer e a lei da terceirização aprovadas no ano passado, os trabalhadores automotivos não veem caminho de luta através dos sindicatos existentes. O chamado do encontro de 9 de Dezembro em Detroit para a construção de comitês de base de trabalhadores em oposição aos sindicatos possui a maior importância para a atual situação no Brasil, onde esses comitês são necessários não apenas para defender os empregos, salários e condições de trabalho dos trabalhadores automotivos, mas também para preparar a luta de toda a classe trabalhadora contra o governo Bolsonaro.